sábado, 14 de fevereiro de 2009

Disse Alice nadando em todas as direções, tentando sair dali:

- "Serei castigada, acho, porque creio que vou me afogar em minhas próprias lágrimas. Será um acontecimento extraordinário. Mas hoje só estão acontecendo coisas extraordinárias!"

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Permacultura


A permacultura é um método holístico para planejar, atualizar e manter sistemas de escala humana (jardins, vilas, aldeias e comunidades) ambientalmente sustentáveis, socialmente justos e financeiramente viáveis.

Foi criada pelos ecologistas australianos Bill Mollison e David Holmgren na década de 1970. O termo, cunhado na Austrália, veio de permanent agriculture, e mais tarde se estendeu para significar permanent culture. A sustentabilidade ecológica, idéia inicial, estendeu-se para a sustentabilidade dos assentamentos humanos.

Os princípios da Permacultura vem da posição de Mollison de que "a única decisão verdadeiramente ética é cada um tomar para si a responsabilidade de sua própria existência e da de seus filhos" (Mollison, 1990). A ênfase está na aplicação criativa dos princípios básicos da natureza, integrando plantas, animais, construções, e pessoas em um ambiente produtivo e com estética e harmonia. E, neste ponto encontra paralelos com a Agricultura Natural, que sendo difundida intencionalmente pelas pesquisas de Masanabu Fukuoka por todo o mundo, chegaram as mãos dos senhores fundadores da permacultura e foram por eles desenvolvidas.

Permacultura é uma síntese das práticas agrícolas tradicionais com idéias inovadoras. Unindo o conhecimento secular às descobertas da ciência moderna, proporcionando o desenvolvimento integrado da propriedade rural de forma viável e segura para o agricultor familiar.

A permacultura, além de ser um método para planejar sistemas de escala humana, proporciona uma forma sistêmica de se visualizar o mundo e as correlações entre todos os seus componentes. Serve, portanto, como meta-modelo para a prática da visão sistêmica, podendo ser aplicada em todas as situações necessárias, desde como estruturar o habitat humano até como resolver questões complexas do mundo empresarial.

Permacultura é a utilização de uma forma sistêmica de pensar e conceber princípios ecológicos que podem ser usados para projetar, criar, gerir e melhorar todos os esforços realizados por indivíduos, famílias e comunidades no sentido de um futuro sustentável.

A Permacultura origina-se de uma cultura permanente do ambiente. Estabelecer em nossa rotina diária, hábitos e costumes de vida simples e ecológicos - um estilo de cultura e de vida em integração direta e equilibrada com o meio ambiente, envolvendo-se cotidianamente em atividades de auto-produção dos aspectos básicos de nossas vidas referentes a abrigo, alimento, transporte, saúde, bem-estar, educação e energias sustentáveis. (RICIARDI, Ju. 2008)





http://blog.permacultura-bahia.org.br/

sábado, 7 de fevereiro de 2009





Isolou-se do mundo que a cercava. Encarnou de vezes sua própria pessoa. Trancou-se no seu quarto e ali ficou durante meses. Não sabia que forçaram-na antes de nascer a trancar as portas e a esconder as chaves. Estava literalmente presa dentro de si mesma. Entregou-se a loucura.

DIAGNÓSTICO: Interiorização da criação artistica. Projeta uma reflexão individual e reflexiva.

Passou a jogar dados pra passar o tempo e adorava sonhar. “Sonhei que varria a lua. Varria pétalas. O Cavaleiro Azul me levou pra cavalgar"

Puro expressionismo.


Acordou numa dessas madrugadas chuvosas em prantos. Dispiu-se como se rasgasse o corpo e saiu a correr rua à fora. Jogou-se num dos muros da vizinhança. Suas lagrimas dessa vez confundia-se com as gotas da chuva. Sentia-se presa, dentro de si própria. Entrou em transe. Uma voz rasteira atropolou-a os ouvidos: Procure por Fauvismo. Ele lhe mostrará novos caminhos... "Uma arte do equilíbrio, da pureza e da serenidade, destituída de temas perturbadores ou deprimentes". Ira conhecer cavaleiros que guiavam a cultura de seus tempos.


Quem sabe eu ainda sou uma garotinha
Esperando o ônibus da escola sozinha
Cansada com minhas meias três-quartos
Rezando baixo pelos cantos
Por ser uma menina má.

Quem sabe o príncipe virou um chato
Que vive dando no meu saco
Quem sabe a vida é não sonhar

Eu só peço a Deus
Um pouco de malandragem
Pois sou criança e não conheço a verdade
Eu sou poeta e não aprendi a amar


Bobeira é não viver a realidade
E eu ainda tenho uma tarde inteira
Eu ando nas ruas, eu troco um cheque
Muda uma planta de lugar
Dirijo meu carro
Tomo o meu pileque
E ainda tenho tempo pra cantar...

A Era do Vazio



Vivemos mais do que nunca num mundo de pessoas desprovidas de um sentido para a sua vida, de uma luz que parecem nunca alcançar...
Porque será este sentimento de vazio tão frequente nas pessoas de hoje?
Estamos perante pessoas que investem mais do que nunca na sua imagem, no culto do corpo, verifica- se cada vez mais uma tendência nárcisica para compensar essa falha elementar do ego. Obviamente que todo e qualquer ser humano é resultado das interacções recíprocas entre si e a sociedade que o rodeia. Dado que este sentimento de vazio é transversal as sociedades ocidentais...impera-se uma análise mais alargada do fenómeno que tem a sua génese, não só, mas também nas sociedades ocidentais.
O individuo tem nas suas relações sociais primárias o contacto com a figura materna, mais tarde com o seu grupo de pares e assim por diante. O homem está intrincado de relações sociais desde sempre. Mesmo em fase intra- uterina até à sua morte é por excelencia uma peça no todo que constituí este xadrez social com todas as interações hierarquizadas, esteritipadas, mais ou menos definidas e aceites pelos actores sociais que a constituem.
A Sociedade está a mudar, os tempos são de transição como refere Boaventura de Sousa Santos, existe uma transição de paradigmas... na ciência, nos valores... Estes tempos de transição que se vivem causam obviamente angustia ao homem que se vê de certa maneira desancorado.
Nunca o homem investiu tanto em si, nunca investiu tanto na sua imagem, numa vida a sós, hoje as pessoas são muito mais individualistas, até mesmo nas relações, aliás há uma crise de valores, decorrente dessa crise de valores encontramos relações cada vez mais descartavéis, bem como um crescente descontentamento da sua propria vida nos mais variados domínios.
O homem tem desinvestido em si numa outra dimensão, na diemensão dos afectos, da partilha, do longo prazo em deterimento do aqui e do agora.
O Sujeito procura um prazer imediato, uma droga, uma pessoa, um afecto, alias ,um pseudo- afecto, na tentativa de colmatar o mau estar que carrega dentro de si e que de alguma forma lhe é reforçado positivamente e legitimado pelos meios de comunicação, pela sociedade em geral.
A comunicação social é sem dúvida uma grande responsável por isto, dá ao sujeito algum conteúdo que este julga ser o bem para todos os seus males e angustias, nem que para isso se banalizem coisas tão importantes como o conceito de amizade, sexo, amor. Neste sentido assistimos a uma sociedade que não está bem e como reflexo disso teremos também sujeitos não muito felizes... Não querendo ser interpretado como conservador, não direi que a sociedade de hoje é pior do que a que passou... simplesmente reflito em alguns aspectos que me parecem ser reflectidos... Para onde vamos sem sabermos? Corremos todos sem excepção, como um todo colectivo que somos, o risco de nos perdermos nesta busca patológica do narcisismo exarcerbado e superficial que só nos alimentará cada vez mais este vazio permanente, assim como se de uma droga se tratasse...
Nem tudo é mau vivemos também numa era de maior respeito por o ser humano, pela dignidade humana, mas a verdade e que essas declarações e convensões universais só farão sentido e só darão frutos se começarmos pelo respeito por cada um de nós, por nós próprios e pelos outros semelhantes.
© Carlos Veiga

Joana Vieira Tuttoilmondo

Barcelos Neto, Aristóteles. A arte dos sonhos – uma iconografia ameríndia, Lisboa, Museu Nacional de Etnologia/Assírio & Alvim, 2002, 276 pp.

Sabemos que a autonomia da arte é um conceito ocidental. Mais do que isso, poderíamos dizer, uma meia-verdade ocidental. Afinal, como toda manifestação artística encerra obrigatoriamente uma atribuição de sentido, atribuições e sentidos que são sociais, a tal autonomia revela-se uma ficção.

Boa parte dos recentes estudos antropológicos voltados à compreensão das formas expressivas (plásticas, visuais, orais, musicais, performáticas etc.), com que tenho tomado contato, toma para si a preocupação de deslindar esses sentidos, integrando seu material de estudo (pinturas, desenhos, imagens, rituais, performances, músicas etc.) às demais dimensões da vida social, sem perder de vista o que há de específico e concreto na expressão não-verbal.

O livro de Aristóteles Barcelos Neto, A arte dos sonhos, apresenta uma reflexão consistente e encantadora, que encara de frente esse desafio. No texto – resultado de sua pesquisa entre os Wauja, realizada durante o mestrado – Barcelos Neto analisa uma série de desenhos realizados por xamãs-artistas. Na maioria deles, figuram seres sobrenaturais antropomórficos ou zoomórficos chamados apapaatai ou yerupoho. Com base nos desenhos, o autor se propõe a apontar como os Wauja percebem seu lugar no mundo e sua relação com os seres extra-humanos. As imagens – expressões visuais – são vistas como modos de reflexão cosmológica e ontológica.

O resultado é, em grande parte, tributário das capacidades interpretativas dos informantes. O próprio autor explicita que seu campo investigativo foi construído em conjunto com os informantes-desenhistas (p. 42), firmando suas opções metodológicas. Entram, por um lado, uma recapitulação da bibliografia sobre os Wauja e uma comparação com outros povos do Xingu, uma análise antropológica – fruto de suas cuidadosas observações etnográficas – sobre alimentação, adoecimento e cura, uma análise iconográfica do grafismo e do caráter formal dos desenhos. Por outro lado, inserem-se as considerações dos autores sobre seus desenhos, relacionados a experiências como o sonho e o transe, as interpretações nativas e a consideração do que os Wauja desejam expressar.

Nesse movimento, a compreensão dos desenhos ganha densidade à medida que são apresentadas as narrativas míticas de seus informantes. Revela-se uma correspondência complementar entre os mitos e a produção artística dos Wauja. Essa complementaridade, em vez de postulada, evidencia-se no enfrentamento do material. Ao final da leitura, os casos analisados delineiam com precisão e beleza o que o autor chama de ontologia e cosmologia plásticas wauja (p. 116).

Se ficássemos apenas no nível da fruição estética dos desenhos, o livro já propiciaria bons momentos. São belos os desenhos. Mas por que me pareceram belos? Para além da inegável precisão dos traços, do sentido de composição, do jogo de cores, do caráter sintético, do cuidado com a simetria, do ritmo, da complexidade formal etc., sua "beleza" está no quanto eles reportam a outras dimensões, no quanto eles deslindam informações que só podem ser claramente acessadas por meio das imagens.

Barcelos Neto apresenta como os desenhos se referem à relação dos Wauja com os seres extra-humanos, inserindo esta produção plástica no fluxo da vida cotidiana. Os episódios narrados pelo autor não são anedotas; por meio deles se evidencia um sistema relacional mais amplo, que sustenta e dá inteligibilidade a essa produção.

Em paralelo à análise sobre os Wauja, são fornecidas informações sobre o contexto de pesquisa, o que promove um ganho à leitura. A ida do autor a campo foi precedida por estudos feitos em coleções de diversos museus – Museu do Índio e Museu Nacional, no Rio de Janeiro, Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás e Museu de Arqueologia e Etnologia da USP – e compreendeu também um período de coleta de acervo para o Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal da Bahia.

Vale mencionar ainda outras realizações de Barcelos Neto na área museológica, como as exposições Os índios, nós e Com os índios Wauja – objetos e personagens de uma coleção amazônica, ambas realizadas no Museu Nacional de Etnologia de Lisboa, em 2000 e 2004, respectivamente. Com essas iniciativas, Aristóteles procurou trazer para o âmbito museológico o contexto de produção e circulação de objetos e sentidos. A arte dos sonhos não deixa de ser resultado da interrogação feita pelo autor aos objetos (nesse caso, os desenhos) no lugar em que eles foram recolhidos e com a colaboração de seus interlocutores.

Embora Aristóteles afirme que seu estudo se coloca num campo mais amplo do que a reflexão sobre as coleções antropológicas em museus – afirmação com a qual concordo integralmente –, algumas considerações que ele tece a respeito de seu próprio fazer se estendem a todos os processos museológicos de coleta. As trajetórias históricas e as redes de sociabilidade que envolvem os artefatos (sua produção e utilização) tendem a desaparecer quando eles ingressam numa reserva técnica de museu. A etnografia e a memória dos integrantes das sociedades produtoras desses objetos são capazes de recompor essa trama, e é nesta direção que os estudos sobre cultura material têm se conduzido mais recentemente.

O significado de cada motivo não deve ser procurado per se – erro que estudos de cultura material baseados apenas em coleções de museus podem cometer. "O entendimento do significado do grafismo wauja assenta-se menos nele próprio do que na agência de seus criadores" (p. 172). Conforme nos mostra Aristóteles, a arte permite um contato menos perigoso e, em um certo sentido, domesticado, com os seres extra-humanos.

O entendimento da imagem na sua inserção social é diferente da mera e vulgar contextualização. A meu ver, um dos maiores méritos do livro é aliar a compreensão das imagens à compreensão da sociedade sem recair em explicações deterministas ou causais. Como bem coloca o autor, os desenhos eram uma oportunidade de os Wauja produzirem reflexões a respeito de si próprios (p. 45).

Em A arte dos sonhos, as imagens são tratadas como estratégias para se conhecer a sociedade que as produz. Se um dia tais desenhos acabarem integrando a coleção de algum museu, certamente essa reflexão que envolveu sua coleta possibilitará que o contexto social de existência das imagens seja recuperado. É claro que não basta haver o estudo para que os liames sociais dos objetos mantenham-se articulados aos objetos nessa nova vida que eles passam a ter no contexto institucional do museu. Mas isso já é uma outra história.



Bibliografia

BARCELOS NETO, A. 2000 Os índios, nós, Lisboa, Museu Nacional de Etnologia.

2004 Com os índios Wauja – objetos e personagens de uma coleção amazônica, Lisboa, Museu Nacional de Etnologia.