Vocês ficam aí largadas com essas poses entediadas quando não passam de um rebanho
que vaga na ignorância! Pois saibam vocês que se eles nos alimentam tão bem com uma das mãos, é apenas para nos arrancar o coração com a outra que têm! Lambem o suor do nosso couro para bolsas e sapatos, devoram a carne de nossa carne em repastos grandiosos, fraturam e faturam com nossos ossos roídos e com o sangue de nosso sangue extraído e espremido ainda fazem chouriço, isso e aquilo. Nem se iludam as reses premiadas que se julgam as preferidas felizardas dos capatazes! Eles serão capazes de ferí-las, fritá-las, assá-las e vendê-las como prostitutas decadentes
em modernosas marmitas quentes para festas de políticos ou comícios de pastores apocalípticos em estádios de futebol. Até quando seremos dribladas, ludibriadas e engolidas de surpresa nesse jogo de destruição? Vocês estão me ouvindo? Ou não? Vocês pensam que esses caminhões estacionados nos fundos obscuros dessas matas vão levá-las para treino, passeio e pastoreio em hotéis de cinco estrelas? Lamentavelmente não. As estrelas deste céu não brilham no escuro aonde vão... vão matálas!
Entendem a nossa condição?! As linguiças que eles enchem nesses tempos nos são fatais!
Alguns até que nos fazem suas homenagens especiais, criando-nos estátuas em praças para sermos veneradas como deusas...são modas da mesma civilidade que sacia perversidade moral e falta de juízo, em churrascarias do tipo rodízio, com a sangria infernal de nossas carcaças...Para a nossa desgraça, até os leites de nossas tetas, tomam as crias deles, como se fôssemos suas criadas compradas, ou escravas leiteiras, feito gatas borralheiras ou mães pretas maltratadas pelas
madrastas... Separam-nos, esfaqueiam-nos e esquartejam-nos com os requintes de sua crueldade refinada, já que tudo é temperado, marinado, cozido e produzido em seu próprio benefício, mesmo que seja a nossa ração diária! Os que tomam gosto ainda escrevem livros de culinária! Vocês estão me ouvindo? E me vendo? Ou estão apenas me olhando com esses olhos molhados que serão comidos com repolho e molho de marisco em petiscos assinados por “chefs” nazistas? São assassinos especialistas em crimes hediondos, transformando nosso horroroso genocídio em algo mais apetitoso para as suas mesas e ofícios! Tornaram-nos canibais como a si mesmos! E se fazem
os seus massacres à esmo consigo, não os fariam conosco? Vocês acham que essas marcas aferradas em nossos lombos são tatuagens para a vaidade de seus cornos? Que forragem é essa entregue de bandeja, à hora certa e em baias esterilizadas? E essas cercas eletrificadas? São injeções, remédios e vacinas para estarmos sempre limpas e saudáveis... Mas eu vos pergunto: limpas para quem? Saudáveis para o quê? Convém esclarecer que todo esse tratamento científico esconde um projeto
de morticínio em plena operação! Esta fazenda modelo é um verdadeiro campo de concentração!
Seremos torradas e moídas no inverno e congeladas como sorvetes no verão! Acreditem! Eu tenho razão! Vocês farão o mesmo que seus pais fizeram por seus filhos? Vocês estão me ouvindo? Mas estão me entendendo? Vão ficar empacadas como mulas num rebanho de burras suicidas? Vocês precisam me dar ouvidos! Espantem esses mosquitos dessas orelhas e tomem vergonha nas caras de esterco; se estamos atoladas nesta situação, a culpa deve ser de nós mesmas, que nos deixamos levar para o matadouro pelas mãos dos vampiros, como estamos indo... É claro que eu tenho certeza! Vocês tem certeza de estar me ouvindo?! Precisamos por um fim no fundo disto tudo! Eu
não sou mais aquele quadrúpede que vocês estão ruminando que sou... os nossos criadores são doutores em extinção! Ver é claro que eu não vi, mas quem viu também não poderia estar aqui!
Vocês me compreendem? Juro que tenho razão! Eu e-vo-lu-í! Por favor, me ouçam! Usem esses cérebros antes que sejam servidos embebidos em cerveja! É sim uma questão de vida ou morte!
Vocês precisam acreditar em mim! Somos vacas ou ratazanas?! Rebanho de covardes! Não! Me larga! Eu não estou ficando louca! Tirem essas patas de cima de mim!
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