sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Ajudando o Professor a Ensinar pra Valer nas Classes de Aceleração

Alice Davanço Quadrado
Maria José Reginato Ribeiro Tina Amado

Um dos problemas centrais do Ensino Básico no Brasil é o alto índice
de fracasso escolar, traduzido nas elevadas taxas de repetência e
evasão. Em todo o País, isso representa elevados custos humanos,
sociais e financeiros.
No Estado de São Paulo, as perdas por repetência e evasão
representam cerca de 25% do total dos alunos matriculados na Rede:
são jovens que não têm acesso à plena cidadania, é toda uma
sociedade que não conta com novas gerações adequadamente
formadas e que arca com o desperdício dos recursos públicos
acarretado pela repetência.
Além de fator reconhecidamente responsável por grande parte da
evasão, a múltipla repetência traz conseqüências graves para o
autoconceito do aluno, fruto da interiorização do fracasso escolar,
prejudicando-o como cidadão e em sua relação com o
conhecimento.
Visando reverter este quadro e criar condições para que a escola cumpra
efetivamente sua função social, atendendo às necessidades de todos os alunos,
a Secretaria de Estado da Educação de São Paulo - SEE desencadeou a partir
'Técnicas do Centro de Pesquisas para Educação e Cultura - CENPEC.
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de 1995 uma série de ações, dentre as quais o Projeto de Reorganização
da Trajetória Escolar no Ensino Fundamental: Classes de Aceleração. O
objetivo é corrigir o fluxo na Rede, eliminando a defasagem idade/série,
criando condições para que alunos multirrepetentes possam, em um ou
dois anos, retomar com sucesso o percurso regular, freqüentando a série
prevista para seu grupo erário(2). Mais que isso, na verdade, as Classes
de Aceleração visam recuperar a confiança perdida: de alunos, em sua
capacidade de aprender, e de professores, em sua competência para
ensinar bem a todos.
Concepção das Classes de Aceleração
Assumir o compromisso com a aprendizagem dos alunos
multirrepetentes implicou empenhar-se na revisão do que seria
realmente indispensável assegurar nesta retomada do percurso,
estruturando uma proposta pedagógica significativa e relevante. O
Projeto não pretende criar outra modalidade de ensino, nem instituir a
promoção pura e simples dos alunos para séries subseqüentes: visa,
sim, resgatar, através de aprendizagens bem-sucedidas, o autoconceito
positivo e a confiança dessas crianças e jovens na própria capacidade
de aprender, condições básicas para a continuidade dos estudos com
chances de sucesso.
Não bastava, pois, elaborar um programa de recuperação dos
conteúdos tradicionalmente trabalhados da 1a. à 4a. série. Fez-se
necessário desenvolver uma proposta que mobilizasse os alunos para
conquistar o conhecimento, ampliando suas possibilidades de
aprendizagem, o que certamente implicaria uma nova abordagem dos
conteúdos e da prática docente; seria então necessário organizar um
ambiente escolar desafiador, que estimulasse a curiosidade de
conhecer o mundo, abrindo janelas para a leitura do cotidiano através
dos conteúdos das diferentes disciplinas.
A proposta pedagógica curricular das Classes de Aceleração,
elaborada pela Fundação para o Desenvolvimento da Educação -
FDE, órgão vinculado à Secretaria de Estado da Educação,
originou-se desse propósito (ver artigo anterior nesta publicação).
Para concretizá-la, coube à equipe do Centro de Pesquisas para
Educação e Cultura - CENPEC a elaboração de material de apoio para
professores e alunos, bem como a capacitação dos docentes
envolvidos no Projeto.
2 São considerados alunos com defasagem idade/série aqueles que ultrapassam em dois ou mais anos a idade
prevista para a série em que se encontram matriculados. Embora a defasagem atinja os maiores índices da 58 à 8a
série, a SEE optou por "enfocar, inicialmente, as primeiras séries do 1° Grau, atuando assim onde se encontram as
raízes de sua formação" (SÃO PAULO, 1996b).
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O Material de Apoio
O material elaborado para dar sustentação à atuação docente e discente
no desenvolvimento dessa proposta visa operacionalizar, no dia-a-dia, os
princípios e procedimentos nela explicitados; além de orientação para o
tratamento adequado dos conteúdos curriculares, enfatiza e oferece
alternativas viáveis de condução de classe no trabalho com turma
heterogênea.
Coerente com a concepção de conhecimento e de ensino-aprendizagem
da proposta, o material foi concebido para ser estimulante, promovendo
a integração dos conteúdos, o debate, a busca de informações, o hábito
de registro; atraente, conquistando o envolvimento do aluno e a
cumplicidade do professor, inclusive pelo toque de humor das
ilustrações; e diversificado, a fim de ajudar o professor a atender às
diferentes necessidades dos alunos. Uma preocupação que perpassa
todo o material é a de contribuir para que professor e alunos tenham
clareza dos objetivos de cada atividade proposta e das aprendizagens
realizadas. Para o professor, isso auxilia no planejamento das
intervenções que se fazem necessárias; para os alunos, ajuda a dominar
o próprio processo de aprendizagem, favorecendo o desenvolvimento da
autonomia, condição fundamental para que prossigam seus estudos com
sucesso.
Todo o material foi elaborado em 1996 em caráter provisório,
acompanhando 0 próprio processo de implantação do Projeto na Rede.
Por um lado, era preciso conhecer mais de perto o público a quem se
destinava; por outro, dada a intenção de que tivesse um caráter
formador, em estreita vinculação com a capacitação dos professores,
pretendia, ao mesmo tempo que lhes oferecia sugestões, incorporar
suas contribuições nas etapas seguintes.
Para sua elaboração, formou-se uma equipe(3) de especialistas de área
responsável pela produção dos textos-base para professores e alunos,
contendo as propostas de atividades para todos os componentes - e uma
equipe de pedagogas do CENPEC, encarregada do texto final, produto da
organização, adequação, integração e revisão dos textos-base; e, ainda,
uma revisora e profissionais para projeto gráfico e edição de arte.
3 Encarregaram-se dos textos-base América dos Anjos C. Marinho, Maria Cecília Machado e Zoraide I.
Faustinoni da Silva (Português), Elza Yasuko Passini (História e Geografia), Kátia C. S. Smole
(Matemática), Maria Aparecida R. de Abreu (Ciências), Regina Andrade Clara e Sonia M. Madi Rezende
(Educação Artística e Educação Física); as responsáveis pelo texto final são Elisabete da Assunção José,
Maria José R. Ribeiro, Marilda F Ribeiro de Moraes e Zoraide I. F da Silva, sob coordenação pedagógica
de Maria das Mercês F Sampaio e coordenação geral de Marta Wolak Grosbaum.
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Tendo como base as propostas curriculares elaboradas especificamente
para as Classes de Aceleração, a escolha e organização das atividades não
são aleatórias: seguindo os mesmos princípios da concepção que as
sustenta, as atividades sugeridas são desafiadoras, valorizam os
conhecimentos e as produções dos alunos e estimulam para que tenham
consciência de seu próprio processo de aprendizagem.
O material é propositadamente único para as Classes de Aceleração I e li,
pois a proposta é uma só - e deve permitir que todos avancem, podendo
apresentar desempenhos diferentes, de acordo com os conhecimentos que
já possuem, habilidades desenvolvidas e grau de autonomia conquistado.
Alternativas de atendimento aos diferentes níveis de aprendizagem são
sugeridas em todos os componentes.
É composto por um conjunto de quatro módulos, contendo, cada um,
livro do professor, livro do aluno, fichas de atividades, encartes,
cartazetes e jogos.
Ensinar pra Valer! é o livro do professor, com orientações sobre
procedimentos pedagógicos, atividades para todos os componentes
curriculares e considerações a respeito dos conteúdos e conceitos
trabalhados. Ao final de cada componente, apresenta um
quadro-síntese, relacionando cada atividade proposta aos objetivos
pretendidos, de modo a permitir ao professor ter clareza do que está
desenvolvendo e para quê, podendo assim selecionar ou criar outras
atividades, segundo as necessidades ou dificuldades dos alunos.
Discute e propõe também procedimentos relativos à condução de classe,
indispensáveis para a realização da proposta pedagógica, tais como 0
estabelecimento de rotinas diárias do uso do tempo, do espaço e dos
materiais; o planejamento da distribuição e seqüência das atividades; a
organização de momentos de trabalho coletivo, em pequenos grupos e
individuais para atender aos diferentes ritmos de aprendizagem dos
alunos; a realização do acompanhamento e registro das observações do
professor a respeito da classe, dos alunos individualmente e de seu
próprio trabalho.
O livro do aluno, Aprender pra Valer!, traz atividades variadas e
estimulantes, cujo desenvolvimento é orientado no livro do professor.
Em todos os módulos, para cada componente é apresentado um
índice das atividades a serem realizadas, que vai sendo preenchido
pelos alunos no decorrer de sua realização, com o objetivo de
ajudá-los a organizar-se e conscientizar-se das aprendizagens
realizadas; além disso, prevê espaços para que façam apreciações
sobre elas.
As fichas - de leitura, problemas ou experimentos - e os jogos (para a
aprendizagem lúdica de alguns conteúdos de Português e Matemática) facilitam
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o trabalho diversificado em sala de aula, envolvendo grupos de alunos em
atividades de seu interesse ou para trabalhar dificuldades específicas,
enquanto o professor dá atendimento individual ou em pequenos grupos
aos demais; os encartes, para uso individual dos alunos, facilitam o
desenvolvimento de algumas atividades, enquanto os cartazetes
destinam-se a ilustrar os temas trabalhados ou desencadear atividades.
Faz parte também do material um volume específico sobre o tema
Avaliação, contendo, além de indicações dos procedimentos para uma
avaliação diagnóstica inicial da classe, orientações detalhadas sobre a
avaliação em processo, parte integrante da proposta pedagógica: indica os
avanços desejados no processo de desenvolvimento do aluno em cada
disciplina, pontuando os marcos de aprendizagem que devem ser
observados e perseguidos no acompanhamento de cada um. Como a
proposta das Classes de Aceleração busca a integração do ensino e da
aprendizagem, a avaliação só faz sentido se incidir sobre as produções dos
alunos e o trabalho realizado pelo professor. Só poderá servir como
instrumento para ajudar os alunos a aprender na medida em que ofereça
subsídios para o professor rever seus procedimentos e replanejar sua
atuação. Nesse sentido, esse volume propõe ainda algumas questões que
pretendem levar o professor a refletir sobre sua condução dos trabalhos, em
cada um dos componentes curriculares.
Este material parece ter servido aos fins a que se propunha. Apesar de
problemas de ordem burocrática, em virtude dos quais os professores não
puderam dispor do que fora produzido dentro dos prazos previstos em
1996, pôde-se perceber, através do contato com os professores e com as
produções de alunos por eles trazidas, que os módulos a que tiveram
acesso foram muito bem recebidos e serviram realmente de apoio para
desenvolver o proposto na capacitação. Problemas como a adequação da
linguagem e das propostas de atividades à idade e aos interesses dos
alunos, sentidos pelos professores a partir do uso em classe, bem como da
clareza de algumas orientações para o próprio professor, puderam ser
corrigidos na produção dos módulos seguintes e por ocasião da revisão de
todo o material para o ano de 1997. Da mesma forma, pôde-se perceber, no
contato com os professores, quais as necessidades que explícita ou
implicitamente traziam em relação ao trabalho, o que também norteou as
produções subseqüentes.
O material foi cuidadosamente pensado e elaborado para contribuir com o
trabalho diário do professor na sala de aula e ajudá-lo a construir uma
nova prática. Evidentemente, porém, ele não é mágico e não basta por si.
A mediação do professor é fundamental no planejamento dos conteúdos a
serem estudados, na organização das atividades e da classe, no contato
com os alunos, nas intervenções que se fazem necessárias... Daí ser
fundamental a estreita vinculação do material com a capacitação dos
professores que o utilizam.
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A Capacitação dos Professores
Novas práticas só são adotadas quando se percebe sua necessidade, ou
seja, quando se reconhece que as anteriores já não atendem ao que se
deseja, sendo necessário alterá-Ias. Isso ocorre através da reflexão,
buscando-se fundamentação teórica para escolher alternativas mais
adequadas. Esse processo demanda tempo, constitui-se gradualmente e
é mais eficaz quando as pessoas interagem num mesmo grupo, em que
se criam vínculos de conhecimento, confiança mútua e solidariedade. A
capacitação de professores em grupos, a partir dessas premissas,
sensibiliza e mobiliza para a ação, oferecendo recursos para ampliar a
compreensão do processo pedagógico e tratar adequadamente os
conteúdos das áreas do currículo, especialmente ao proporcionar
oportunidade de vivenciar situações de aprendizagem que os levem a
colocar-se no lugar do aluno.
A sistemática de capacitação adotada para os professores envolvidos no
Projeto das Classes de Aceleração apoiou-se nessas premissas, usando o
material produzido para ajudá-los a operacionalizar a proposta no
dia-a-dia da sala de aula, solidificando sua prática, fortalecendo sua
autoconfiança e favorecendo uma visão de conjunto das atividades de
cada componente, dos objetivos a que servem e reiterando, através de
seu desenvolvimento, os propósitos formativos da capacitação. Esta
consistiu em cinco encontros de dois a três dias cada um, ao longo do
ano letivo, reunindo sempre os professores a cargo de uma mesma
capacitadora.
O planejamento, a execução e a avaliação da capacitação foram
realizados por uma equipe de 15 capacitados(4), que se reuniam com a
coordenação do CENPEC em momentos imediatamente anteriores e
posteriores aos encontros com os professores, assegurando unidade ao
processo e maior segurança a suas protagonistas. A seleção das
capacitadoras foi criteriosa, enfatizando, além da competência técnica,
sensibilidade, habilidades de comunicação e relacionamento, bem como
o compromisso com as questões da Escola Pública, especialmente com
os alunos multirrepetentes. Trata-se de um grupo de pedagogas e
alfabetizadoras com larga experiência profissional em variadas funções e
atividades na área da Educação. Coube a elas o principal papel no
desenvolvimento do trabalho junto aos professores, proporcionando aos
participantes fundamentação teórica e momentos de reflexão sobre a
prática, a proposta pedagógica e o Projeto.
4 Carmen Martini Costa. Carmen Olívia B. Peres, Ines Rosanna Carmmarota, Iracema Amaral Mucciolo,
Maria Aparecida Laginestra, Maria Helena L. C. Berti, Marlene Coelho Alexandroff, Maria Nivia S. SchOtt,
Medida F Ribeiro de Moraes. Regina Andrade Clara, Sônia de Gouveia Jorge, Sonia M. Rolffen Diaz,
Vanda Noventa Fonseca, Walderez Nosé Hassenpflug e Wilma Dellwni Teixeira, coordenadas por Alice
Davanço Quadrado.
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Os professores foram distribuídos em 15 turmas sediadas em diferentes
regiões, com aproximadamente 40 pessoas por grupo, sob a coordenação
de uma mesma capacitadora até o final do ano, mantendo-se assim as
relações de vínculo instaladas. Além dos docentes, integraram os grupos
coordenadores pedagógicos, supervisores e técnicos das escolas e
delegacias envolvidas no Projeto.
A maioria dos professores das Classes de Aceleração, segundo dados
fornecidos pela FDE, tem até 10 anos de experiência profissional (66%)
nas séries iniciais do 1° Grau. São, na esmagadora maioria (99,3%),
mulheres, com idades variando de 19 a 34 anos (50%) e de 35 a 50
anos. Todos têm formação completa de 2°- Grau, enquanto mais da
metade (57%) cursou e cerca de um quinto (22%) ainda está cursando a
universidade. Em relação à situação funcional, 45% são efetivos,
distribuindo-se os demais entre estáveis e não-estáveis.
Os encontros de capacitação foram sempre momentos de intensa
interação, consistindo em leitura e debate de textos teóricos e literários,
troca de idéias, vivência de atividades e jogos de sala de aula em
organização variada (em grupos, individual e coletiva), utilizando grande
diversidade de recursos materiais (textos, retroprojetor, vídeo, som) - e,
principalmente, as atividades de Ensinar pra Valer! e Aprender pra Valer!
Começaram os encontros (...) Uma
realidade completamente diferente, com
riqueza de materiais e disposição para
vencer. (Prof(a) Capital)
Com vocês [equipe de capacitação], mudei
as coisas. Além das lousas e
mimeografados de antes, optei pelos
grupos de alunos, círculos, duplas,
passei a utilizar paredes, cartazes,
painéis, jornais e revistas... Muito
estímulo, tantas tentativas e bons
resultados! (Prof(a) Itaquaquecetuba)
A equipe que planejou a capacitação está bem ciente de que os
problemas de formação docente não podem ser todos resolvidos no limite
de um programa. As eventuais lacunas de formação, refletidas na
prática profissional, inserem-se em um contexto mais amplo, requerendo
ações de várias naturezas, em relação tanto à formação inicial quanto à
formação em serviço. Entretanto, um programa como o proposto visou
assegurar maior domínio e uma visão integrada dos conteúdos
curriculares, reflexão coletiva sobre a própria prática e um novo olhar
sobre o aluno e a condução de classe.
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O ponto de partida é o reconhecimento e a valorização do saber do
professor, buscando-se sempre respeitar e aproveitar sua experiência.
Este projeto não veio apagar aquilo que a
gente já sabia. Veio acrescentar. E
acrescentou muito! (Profª. Capital)
A troca de experiências entre os professores, nos grupos de capacitação,
permite conhecer outras propostas, validar o trabalho realizado ou
mesmo acertos de rumo, quando necessários.
O conteúdo tratado em cada encontro era estreitamente vinculado à
proposta pedagógica e à prática docente, na forma expressa no conjunto
dos materiais de apoio. O professor deveria apropriar-se dos conteúdos
curriculares de maneira significativa (tal como seus alunos),
tornando-se capaz de selecioná-los e dosa-los visando garantir o que é
realmente indispensável nessa retomada. Foi instigado a refletir sobre a
proposta curricular, tornando-se um sujeito ativo no processo
ensino-aprendizagem, capaz de responder adequadamente a uma
variedade de situações.
Como Português e Matemática são componentes centrais na
aprendizagem das séries iniciais, em todos os encontros os professores
foram envolvidos em atividades de leitura e produção de textos, além da
análise dos textos produzidos pelos alunos, desenvolvendo um trabalho
colado à prática da sala de aula; e vivenciaram situações de resolução de
problemas em números, medidas e geometria, a partir de dados do
cotidiano dos alunos, tais como os propostos no material de apoio. Estes
também foram os pontos de partida para desencadear a aprendizagem
de conteúdos dos demais componentes (Ciências, História, Geografia,
Educação Artística e Educação Física), igualmente trabalhados durante
o ano.
Outra preocupação permanente durante a capacitação foi contribuir
para que o professor alcançasse uma visão articulada e integrada dos
vários componentes curriculares. Assim, atividades relativas aos temas
centrais de cada módulo foram vivenciadas em um processo dinâmico e
interativo, levando o professor a desenvolver nova percepção sobre o
processo de construção do conhecimento.
Achava que os alunos aprendiam decorando, mas é preciso
deixá-los expor suas idéias, mostrar seus conhecimentos,
suas dificuldades... (Profª. Itaquaquecetuba)
A fim de atender adequadamente à proposta pedagógica das Classes de
Aceleração, era preciso ainda levar o professor a conhecer o perfil de seus
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alunos e a reconhecer a importância de promover seu autoconceito
positivo, nutrindo-o pelos ganhos cognitivos. Para isso, o professor
exercitou um novo olhar sobre os alunos, procurando reconhecer suas
habilidades, valorizando seus êxitos, sabendo que cresce a confiança em
si quando se percebe capaz de aprender.
Meus alunos hoje são mais confiantes ao
enfrentar dificuldades... (Prof(a) São
Miguel Paulista)
Professora, o que a senhora está fazendo
com a minha filha?! Agora ela está lendo!
Ela não tem mais medo de ler! (Mãe de
aluna, Diadema)
Também constituíram conteúdos dos encontros de capacitação temas
como o registro do cotidiano escolar, que favorece o acompanhamento do
processo ensino-aprendizagem; as práticas de rotina e planejamento,
que permitem o trabalho produtivo e sistematizado; e debates sobre
questões e expectativas dos professores, implícita ou explicitamente
manifestas; dentre estas, particularmente, questões da disciplina e da avaliação.
Os procedimentos em relação à "indisciplina" dos alunos, tema
fortemente requerido pelos professores, foram tratados de forma
articulada à própria organização das situações de aprendizagem. Uma
vez reconhecidos os problemas de indisciplina que podem ser resolvidos
no interior da sala de aula, enfatizou-se a importância do planejamento
coletivo da rotina diária, a necessidade da organização como condição
para o trabalho intelectual, assim como a preocupação permanente em
constituir a classe como um grupo, através do estabelecimento comum
de acordos e regras, gerando confiança mútua e solidariedade.
A capacitação mudou muito a visão que
tínhamos sobre disciplina... (Prof(a) Capital)
Outro tema recorrente foi a avaliação, considerada como instrumento
para ajudar o aluno a aprender, na medida em que permite a percepção
de seus avanços e dificuldades, e como prática que leva o professor a
refletir sobre seu próprio trabalho e a replanejar suas intervenções.
Hoje, uso a avaliação para replanejar meu trabalho e ver o
que deu certo e o que devo mudar. (Prof(a) Carapicuíba)
Houve preocupação também com a avaliação da própria capacitação.
Ao final de cada encontro, os participantes preenchiam uma ficha de avaliação
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respondendo a questões abertas e fechadas; buscou-se com isso, ao mesmo tem
professores opinavam sobre a importância, a conveniência e a forma
como foram conduzidos os encontros. Esses dados eram discutidos com
a equipe de coordenação e sintetizados em um relatório enviado à SEE;
ao mesmo tempo, as sugestões e críticas eram levadas em conta no
planejamento dos encontros seguintes, gerando reflexos também na
produção do material. Nesse sentido, os professores são de certa forma
co-autores desse processo, além de verdadeiros protagonistas da
implementação das Classes de Aceleração, junto com seus alunos.
Considerações Finais
A implementação do Projeto, ao final da presente etapa, traz as marcas
do "novo": de um lado, a paixão dos que desafiam a inércia e ousam
transformar; de outro, os riscos inevitáveis dos que caminham abrindo
horizontes e concretizando ações. Assim, fazer um balanço do que foi
realizado até o momento implica arrolar conquistas e obstáculos.
Tendo o Projeto envolvido um volumoso contingente de pessoas de
diversas instituições, o trabalho incessante e o compromisso
revelado pela maioria configuram sem dúvida pontos dos mais
positivos.
É cedo para avaliara eficácia do investimento na capacitação dos
professores e na produção do material de apoio. Até o momento
(novembro de 1996), não dispomos ainda de dados sobre a promoção
dos alunos. Em breve estarão disponíveis esses resultados, assim como
os do acompanhamento dos egressos das Classes de Aceleração, que
serão feitos em 1997, visando aferir, basicamente, seu sucesso na
continuidade dos estudos.
No entanto, dispomos, sim, de indicadores de natureza qualitativa, na
forma de depoimentos dos professores e produções dos alunos.
Através destes, foi possível perceber, desde o primeiro semestre, que
as Classes de fato faziam diferença, para professores e alunos.
Cresciam, no professor, a segurança ao desenvolver um trabalho
eficiente, o sentimento de dignidade profissional, de solidariedade
para com os alunos e a confiança em sua capacidade de aprender;
enquanto os alunos referiam-se claramente a suas conquistas em
relação ao mundo letrado: ler jornais, fazer contas, construir gráficos,
escrever diário - gostando de fazer tudo isso.
A proposta pode não dar certo, mas eu nunca mais
sereia mesma. (Prof(a) São Miguel Paulista)
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“ Mudei muito minha postura como
professora, tornando-me ousada, curiosa,
sempre buscando o novo... (Prof(a)
Carapicuíba)
Mudou minha visão em termos do que posso
fazer pelo aluno. (Prof(a) Guaianazes)
(...) mudou muito a minha vida, porque eu não
sabia nada antes e agora eu estou lendo e
escrevendo. É muito importante para mim.
Professora, aprendi a gostar de ler com você...
Eu não sabia escrever meu nome (...) e agora
eu sei fazer até diário e continha de quarta
série.
Hoje sei escrever carta, sou eu que escrevo
pro avô lá na Bahia.
Acho que estou bom na escola. (...) Quando eu
não sabia ler, eu pedia pra meu irmão (...)
Hoje eu sei ler e ele se orgulha de mim.
(Alunos, diversas escolas)
Esses e muitos outros depoimentos revelam a concretização do propósito
que permeou tanto a capacitação quanto o material, de que professores e
alunos adquirissem não somente novas competências como também a
consciência dessas aquisições. Muitos depoimentos, tanto dos mestres
quanto de alunos, demonstram ainda a incorporação da nova forma de
tratar os conteúdos e de organizar a classe, tal como proposta no
material e nos encontros, na prática cotidiana da sala de aula.
O tema Supermercado foi tão bem aceito que
os alunos (...) não faltam mais. (Prof(a)
Diadema)
Hoje vejo que, para ensinar e ter um bom
resultado, é preciso partir do que o aluno
sabe e falara linguagem dele. (...) Ele aprende
pra toda a vida. (Prof(a) Taboão da Serra)
Meus alunos me ensinaram coisas que eu não
sabia... [referindo-se a um passeio da classe
em uma reserva florestal] Observamos a
natureza, tudo que estava ao nosso redor. Foi
fascinante! (Prof(a) Cotia)
Aprendi a usar material base dez e a fazer
quadro de observações.
Eu aprendi a data do meu nascimento,
como faz cheque( ...) e estou aprendendo
hora de relógio.
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[aluno argumentando com colega para
obter colaboração:] Você acha que, se
tivesse ficado na outra sala, você já estaria
lendo? (Alunos, diversas escolas)
Ao longo de todo o ano, foi possível perceber o prazer dos alunos em
freqüentar as Classes de Aceleração e a mudança da imagem que faziam de
escola e professor, em sua memória de multirrepetentes.
Adoro vir para a escola. Prefiro vir para a
escola do que ficarem casa. Acordo de
madrugada e fico esperando a hora de vir
para cá.
Antes eu sentava no fundo, o que eu ia fazer
lá na frente? Eu não entendia nada...
Nunca tive uma professora tão legal! Se eu
erro, ela me ensina.
Hoje foi um dia muito legal, mas que pena
que acabou a semana ...(diário de aluno,
numa sexta-feira)
Minha professora é diferente: ela me escuta,
não me ignora, trata todo mundo igual, não
trata um melhor do que o outro.
Dessa classe eu gostei: a professora ensina,
e eu aprendo. (Alunos, diversas escolas)
Falas como essas confirmam nossa hipótese de que um ambiente
desafiador e estimulante, com um professor motivado e consciente de
aonde quer chegar, dispondo de recursos variados de apoio, propiciam o
estabelecimento de uma nova relação dos alunos com o conhecimento, o
que, por sua vez, gera a vontade, o prazer de aprender, a crescente
autoconfiança.
O mesmo sentimento de confiança em si pode ser depreendido de muitos
depoimentos dos professores, ao fazer a avaliação do programa de
capacitação e do próprio trabalho ao final do ano letivo.
Hoje já não me sinto pequena perante os
obstáculos... (Prof(a) Barueri)
Agora sou outra professora, com outra visão
de aprendizagem. (Prof(a) São Miguel
Paulista)
Não posso dizer que mudei de estratégias
para ensinar, pois na verdade não tinha
nenhuma. O que tinha eram alguns modelos
copiados de outras professoras. Hoje posso
dizer que caminho com as minhas próprias
pernas. (Prof(a), Itaquaquecetuba)
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Como se pode ver dessas manifestações, mesmo sem dispor de dados
quantitativos ou de uma avaliação formal, são inegáveis as conquistas do
Projeto. Contribuiu para isso a permanente integração e sintonia entre as
equipes de produção do material e capacitação dos professores, assim como a
cooperação entre estas e a equipe responsável pelo Projeto na FDE.
Em vários momentos, esta equipe assegurou as necessárias medidas de
sustentação: promoveu reuniões com vários segmentos de profissionais da
Rede, para apresentar os propósitos do Projeto e o que vinha sendo
desenvolvido em termos de material e capacitação; participou tanto de
reuniões com a equipe de produção do material, para acerto de rumos, quanto
das reuniões de avaliação dos encontros de capacitação, discutindo as
sugestões e críticas dos professores, o que permitia dar encaminhamento aos
problemas eventualmente apontados; por ocasião da remoção de alguns
professores de Classes de Aceleração durante o período letivo, organizou
encontros específicos das capacitadoras com os que os substituíram,
assegurando a continuidade do processo; ou, ainda, tendo as capacitadoras
percebido que alguns professores apresentavam dificuldades em lidar com os
alunos não-alfabetizados, promoveu um encontro extraordinário, atendendo a
solicitação da equipe do CENPEC, entre professores e duas das capacitadoras,
especialistas em alfabetização.
Entretanto, considerando a própria natureza do Projeto, certos limites de
ordem burocrático-administrativa acabam por constituir-se em entraves a sua
plena realização: embora fosse prevista a adesão voluntária dos professores
para a regência das Classes de Aceleração, cerca de 10% deles não puderam
optar livremente, devido aos critérios vigentes de atribuição de classes na
escola (SÃO PAULO, 1996b); os procedimentos usuais de remoção de
professores em pleno ano letivo provocam ruptura dos vínculos entre
professor e alunos- o que se agrava neste caso, dada a importância da relação
que esses professores, especialmente sensibilizados para atuar com
multirrepetentes, lograram estabelecer com seus alunos.
A burocracia do sistema também impediu que o material produzido chegasse
em tempo hábil às mãos dos professores, prejudicando a capacitação, a
atuação docente e a própria possibilidade de uma avaliação consistente e
criteriosa de sua eficácia, que somente poderá ser feita em 1997, quando todo
o material estiver disponível aos professores desde o início do ano letivo.
Entraves de outras naturezas também puderam ser detectados. Em vários
casos, nas escolas, pôde ser percebido, por relatos de professores, um certo
grau de discriminação em relação às Classes de Aceleração: sua alocação em
salas inadequadas, pequenas, sem ventilação; a falta de apoio da direção e
colegas; o isolamento (inclusive com estabelecimento de horário separado para
o recreio); e, mesmo, sentimentos de "ciúme" por parte dos demais integrantes
da equipe escolar, que aparentemente não se conformavam com "esses
alunos" receberem tantos recursos e atenção. A solução para tais entraves,
na verdade, assim como os anteriormente apontados, estão fora do alcance
do professor que entretanto soube ou pôde oferecer, a seus alunos, uma
experiência de aprendizagem significativa e efetiva.
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Com certeza, isso foi muito valioso, mas não basta. A escola e o sistema podem f
experiência do Ciclo Básico, instalado já há bom tempo na Rede sem
lograr alterações significativas nas atitudes em relação à seriação). Além
disso, desde seu desenho original, as Classes de Aceleração são um
Projeto cujo êxito consiste na própria extinção: deve encerrar-se tão logo
o fluxo seja corrigido. No entanto, sua própria implementação anuncia
que, para não ser mais necessário, as classes regulares deveriam
incorporar muitas de suas premissas e práticas.
Muitos professores participantes do Projeto explicitam que, se nas
classes regulares fosse desenvolvido um trabalho dessa natureza,
não haveria necessidade das Classes de Aceleração; ou, então,
propõem a extensão do Projeto a todas as classes regulares...
Bom seria se todos os professores
pudessem ter um acompanhamento
durante o ano letivo como o que foi feito
com a Aceleração... (Prof(a) Cotia)
Depois da Classe de Aceleração, será o
máximo pegar outras classes, mesmo
complicadas e, quem sabe, passar a
outras o que aprendi na capacitação.
(Prof(a) Itapecerica da Serra)
No entanto, apesar do entusiasmo pela proposta, a contaminação de
outros professores ainda é dispersa e pontual(5), mesmo nas próprias
escolas que abrigam as Classes de Aceleração, destacando a
necessidade de se articular este projeto com os demais promovidos pelo
órgão central, visando mobilizar a escola como um todo - diretor,
professores, alunos, funcionários e comunidade -para assumir, junto
com o poder público, a responsabilidade social de combater o fracasso
escolar e lutar pela inclusão de crianças e jovens, marginalizados pelo
próprio sistema de ensino, no curso regular de estudos e na condição de
cidadãos.
É preciso juntar objetividade e sonho, para
ver cada aluno com um olhar novo,
percebendo-o como alguém que está hoje
conosco, mas pertence ao futuro.
5 Nos encontros de capacitação, professores relataram que colegas de classes regulares, tendo presenciado 0
entusiasmo dos alunos e observado os progressos feitos, interessaram-se pela proposta, pedindo emprestado 0
material de apoio para reproduzir; a equipe do CENPEC também recebeu solicitação de diversas escolas nãoparticipantes
do Projeto para dispor do material, ou até para conhecer o trabalho que já haviam realizado com base nele.
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E tem o direito de aproveitar ao máximo
seu tempo de escola para adquirir
ferramentas que o ajudem no processo de
compreensão do mundo, de participação
social e construção de uma realidade que
ainda não existe.
Raízes e Asas
Referências Bibliográficas
CENPEC - Centro de Pesquisas para Educação e Cultura. Raízes e asas.
São Paulo: CENPEC, 1994.
_____. Ensinar pra Valer!, Aprenda pra Valer! (versão preliminar). 9v. São
Paulo: FDE, 1996.
SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Estado da Educação. Fundação para
o Desenvolvimento da Educação. Diretrizes para avaliação e
parâmetros para encaminhamento dos alunos das Classes de
Aceleração. São Paulo: FDE, 1996a.
_____. Perfil dos professores: Classes de Aceleração. São Paulo: FDE,
1996b.
_____. Reorganização da trajetória escolar no ensino fundamental: Classes
de Aceleração; documento de implantação. São Paulo: FDE, 1996c.
_____. Reorganização da trajetória escolar no ensino fundamental:
Classes de Aceleração; proposta pedagógica curricular. São Paulo:
FDE, 1996d.
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