sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Textos

Texto 1 : Memória
Texto 2 : Industria Cultural
Texto 3 : Mídia

Há, me enviem perguntas p eu enviar p professor...

Bjussssssssss, bjusssssss
Aline


Memória,
Esquecimento,
Silencio•
Michael Pollak*
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Em sua análise da memória coletiva, Maurice Halbwachs enfatiza a força dos diferentes pontos de referência que estruturam nossa memória e que a inserem na memória da coletividade a que pertencemos.1 Entre eles incluem-se evidentemente os monumentos, esses lugares da memória analisados por Pierre Nora,2 o patrimônio arquitetônico e seu estilo, que nos acompanham por toda a nossa vida, as paisagens, as datas e personagens históricas de cuja importância somos incessantemente relembrados, as tradições e costumes, certas regras de interação, o folclore e a música, e, por que não, as tradições culinárias. Na tradição metodológica durkheimiana, que consiste em tratar fatos sociais como coisas, torna-se possível tomar esses diferentes pontos de referência como indicadores empíricos da memória coletiva de um determinado grupo, uma memória estruturada com suas hierarquias e classificações, uma memória também que, ao definir o que é comum a um grupo e o que, o diferencia dos outros, fundamenta e reforça os sentimentos de pertencimento e as fronteiras sócio-culturais. Na abordagem durkheimiana, a ênfase é dada à força quase institucional. dessa memória coletiva, à duração, à continuidade e à estabilidade. Assim também Halbwachs, longe de ver nessa memória coletiva uma imposição, uma forma específica de dominação ou violência simbólica,3 acentua as funções positivas desempenhadas pela memória comum, a saber, de reforçar a coesão social, não pela coerção, mas pela adesão afetiva ao grupo, donde o termo que utiliza, de "comunidade afetiva". Na tradição européia do século XIX, em Halbwachs, inclusive, a nação é a forma mais acabada de um grupo, e a memória nacional, a forma mais completa de uma memória coletiva. Em vários momentos, Maurice Halbwachs insinua não apenas a seletividade de toda memória, mas também um processo de "negociação" para conciliar memória coletiva e memórias individuais: "Para que nossa memória se beneficie da dos outros, não basta que eles nos tragam seus testemunhos: é preciso também que ela não tenha deixado de concordar com suas memórias e que haja suficientes pontos de contato entre ela e as outras para que a lembrança que os outros nos trazem possa ser reconstruída sobre uma base comum."4
Esse reconhecimento do caráter potencialmente problemático de uma memória coletiva já anuncia a inversão de perspectiva que marca os trabalhos atuais sobre esse fenômeno. Numa perspectiva construtivista, não se trata mais de lidar com os fatos sociais como coisas, mas de analisar como os fatos sociais se tornam coisas, como e por quem eles são solidificados e dotados de duração e estabilidade. Aplicada à memória coletiva, essa abordagem irá se interessar portanto pelos processos e atores que intervêm no trabalho de constituição e de formalização das memórias. Ao privilegiar a analise dos excluídos, dos marginalizados e das minorias, a história oral ressaltou a importância de memórias subterrâneas que, como parte integrante das culturas minoritárias e dominadas, se opõem à "Memória oficial", no caso a memória nacional. Num primeiro momento, essa abordagem faz da empatia com os grupos dominados estudados uma regra metodológica5 e reabilita a periferia e a marginalidade. Ao contrário de Maurice Halbwachs, ela acentua o caráter destruidor, uniformizador e opressor da memória coletiva nacional. Por outro lado, essas memórias subterrâneas que prosseguem seu trabalho de subversão no silêncio e de maneira quase imperceptível afloram em momentos de crise em sobressaltos bruscos e exacerbados.6 A memória entra em disputa. Os objetos de pesquisa são escolhidos de
preferência onde existe conflito e competição entre memórias concorrentes.

A memória em disputa
Essa predileção atual dos pesquisadores pelos conflitos e disputas em detrimento dos fatores de continuidade e de estabilidade deve ser relacionada com as verdadeiras batalhas da memória a que assistimos, e que assumiram uma amplitude particular nesses últimos quinze anos na Europa.
Tomemos, a título de ilustração, o papel desempenhado pela reescrita da história em dois momentos fortes da destalinização, o primeiro deles após o XX Congresso do PC da União Soviética, quando Nikita Kruschev denunciou pela primeira vez os crimes estalinistas. Essa reviravolta da visão da história, indissociavelmente ligada à da linha política, traduziu-se na destruição progressiva dos signos e símbolos que lembravam Stalin na União Soviética e nos países satélites, e, finalmente na retirada dos despojos de Stalin do mausoléu da Praça Vermelha. Essa primeira etapa da destalinização, conduzida de maneira discreta dentro do aparelho, gerou transbordamentos e manifestações (das quais a mais importante foi a revolta húngara) que se apropriaram da destruição das estátuas de Stalin e a integraram em uma estratégia de independência e de autonomia. Embora tivesse arranhado o mito histórico dominante do "Stalin pai dos pobres", essa primeira destalinização não conseguiu realmente se impor, e com o fim da era kruschevista cessaram também as tentações de revisão da memória coletiva. Essa preocupação reemergiu cerca de trinta anos mais tarde no quadro da glasnost e da perestroika. Aí também o movimento foi lançado pela nova direção do partido ligada a Gorbachev. Mas, ao contrário dos anos 1950, essa nova abertura logo gerou um movimento intelectual com a reabilitação de alguns dissidentes atuais e, de maneira póstuma, de dirigentes que nos anos 1930 e 1940 haviam sido vítimas do terror estalinista. Esse sopro de liberdade de crítica despertou traumatismos profundamente ancorados
que ganharam forma num movimento popular que se organiza em torno do projeto de construção de um monumento à memória das vítimas do estalinismo.7
Esse fenômeno, mesmo que possa "objetivamente" desempenhar o papel de um reforço à corrente reformadora contra a ortodoxia que continua a ocupar importantes posições no partido e no Estado, não pode porém ser reduzido a este aspecto. Ele consiste muito mais na irrupção de ressentimentos acumulados no tempo e de uma memória da dominação e de sofrimentos que jamais puderam se exprimir publicamente. Essa memória "proibida" e portanto "clandestina"
ocupa toda a cena cultural, o setor editorial, os meios de comunicação, o cinema e a pintura, comprovando, caso seja necessário, o fosso que separa de fato a sociedade civil e a ideologia oficial de um partido e de um Estado que pretende a dominação hegemônica. Uma vez rompido o tabu, uma vez que as memórias subterrâneas conseguem invadir o espaço público, reivindicações múltiplas e dificilmente previsíveis se acoplam a essa disputa da memória, no caso, as reivindicações das diferentes nacionalidades.
Este exemplo mostra a necessidade, para os dirigentes, de associar uma profunda mudança política a uma revisão (auto)crítica do passado. Ele remete igualmente aos riscos inerentes a essa revisão, na medida em que os dominantes não podem jamais controlar perfeitamente até onde levarão as reivindicações que se formam ao mesmo tempo em que caem os tabus conservados pela memória oficial anterior. Este exemplo mostra também a sobrevivência durante dezenas de anos, de lembranças traumatizantes, lembranças que esperam o momento propício para serem
expressas. A despeito da importante doutrinação ideológica, essas lembranças durante tanto tempo confinadas ao silêncio e transmitidas de uma geração a outra oralmente, e não através de publicações, permanecem vivas. O longo silêncio sobre o passado, longe de conduzir ao esquecimento, é a resistência que uma sociedade civil impotente opõe ao excesso de discursos oficiais. Ao mesmo tempo, ela transmite cuidadosamente as lembranças dissidentes nas redes familiares e de amizades, esperando a hora da verdade e da redistribuição das cartas políticas e
ideológicas. Embora na maioria das vezes esteja ligada a fenômenos de dominação, a clivagem entre memória oficial e dominante e memórias subterrâneas, assim como a significação do silêncio sobre o passado, não remete forçosamente à oposição entre Estado dominador e sociedade civil. Encontramos com mais freqüência esse problema nas relações entre grupos minoritários e sociedade englobante.
O exemplo seguinte, completamente diferente, é o dos sobreviventes dos campos de
concentração que, após serem libertados, retornaram à Alemanha ou à Áustria. Seu silêncio sobre o passado está ligado em primeiro lugar à necessidade de encontrar um modus vivendi com aqueles que, de perto ou de longe, ao menos sob a forma de consentimento tácito, assistiram à sua deportação. Não provocar o sentimento de culpa da maioria torna-se então um reflexo de proteção da minoria judia. Contudo, essa atitude é ainda reforçada pelo sentimento de culpa que as próprias vítimas podem ter, oculto no fundo de si mesmas. É sabido que a administração nazista conseguiu impor à comunidade judia uma parte importante da gestão administrativa de
sua política anti-semita, como a preparação das listas dos futuros deportados ou até mesmo a gestão de certos locais de trânsito ou a organização do abastecimento nos comboios. Os representantes da comunidade judia deixaram-se levar a negociar com as autoridades nazistas, esperando primeiro poder alterar a política oficial, mais tarde "limitar as perdas", para finalmente, chegar a uma situação na qual se havia esboroado até mesmo a esperança de poder negociar um melhor tratamento para os últimos empregados da comunidade. Esta situação, que se repetiu em
todas as cidades - onde havia comunidades judaicas importantes, ilustra particularmente bem o encolhimento progressivo daquilo que é negociável, e também a diferença ínfima que às vezes separa a defesa do grupo e sua resistência da colaboração e do comprometimento. Seria tão espantoso assim que um historiador do nazismo tão eminente como Walter Laqueur tenha escolhido o gênero do romance para dar conta dessa situação inextricável?
Em face dessa lembrança traumatizante, o silêncio parece se impor a todos aqueles que querem evitar culpar as vítimas. E algumas vítimas, que compartilham essa mesma lembrança "comprometedora", preferem, elas também, guardar silêncio. Em lugar de se arriscar a um mal-entendido sobre uma questão tão grave, ou até mesmo de reforçar a consciência tranqüila e a propensão ao esquecimento dos antigos carrascos, não seria melhor se abster de falar?
Poucos períodos históricos foram tão estudados como o nazismo, incluindo-se aí sua política
anti-semita e a exterminação dos judeus. Entretanto, a despeito da abundante literatura e do lugar
concedido a esse período nos meios de comunicação, freqüentemente ele permanece um tabu nas
histórias individuais na Alemanha e na Áustria, nas conversas familiares e, mais ainda, nas
biografias dos personagens públicos.9 Assim como as razões de um tal silêncio são
compreensíveis no caso de antigos nazistas ou dos milhões de simpatizantes do regime, elas são
difíceis de deslindar no caso das vítimas.
Nesse caso, o silêncio tem razões bastante complexas. Para poder relatar seus sofrimentos,
uma pessoa precisa antes de mais nada encontrar uma escuta. Em seu retomo, os deportados
encontraram efetivamente essa escuta, mas rapidamente o investimento de todas as energias na
reconstrução do pós-guerra exauriu a vontade de ouvir a mensagem culpabilizante dos horrores
dos campos. A deportação evoca necessariamente sentimentos ambivalentes, até mesmo de
culpa, e isso também nos países vencedores onde, como na França, a indiferença e a colaboração
marcaram a vida cotidiana ao menos tanto quanto a resistência. Não vemos, desde 1945,
desaparecerem das comemorações oficiais os antigos deportados de roupa listrada, que
despertam também o sentimento de culpa e que, com exceção dos deportados políticos, se
integram mal em um desfile de ex-combatentes? "1945 organiza o esquecimento da deportação,
os deportados chegam quando as ideologias já estão colocadas, quando a batalha pela memória já
começou, a cena política já está atulhada: eles são demais."10 A essas razões políticas do silêncio
acrescentam-se aquelas, pessoais, que consistem em querer poupar os filhos de crescer na
lembrança das feridas dos pais. Quarenta anos depois convergem razões políticas e familiares
que concorrem para romper esse silêncio: no momento em que as testemunhas oculares sabem
que vão desaparecer em breve, elas querem inscrever suas lembranças contra o esquecimento. E
seus filhos, eles também, querem saber, donde a proliferação atual de testemunhos e de
publicações de jovens intelectuais judeus que fazem "da pesquisa de suas origens a origem de sua pesquisa".11 Nesse meio tempo, foram as associações de deportados que, mal ou bem, conservaram e transmitiram essa memória.
Um último exemplo mostra até que ponto uma situação ambígua e passível de gerar
mal-entendidos pode, ela também, levar ao silêncio antes de produzir o ressentimento que está na origem das reivindicações e contestações inesperadas. Trata-se dos recrutados a força alsacianos, estudados por Freddy Raphael.12 Após o fracasso de uma política de recrutamento voluntário acionada no início da Segunda Guerra Mundial pelo exército alemão na Alsácia anexada, o recrutamento forçado foi decidido por decretos de 25 e 29 de agosto de 1942. De outubro de 1942 a novembro de 1944, 130.000 alsacianos e lorenos foram incorporados a diferentes formações do exército alemão. Ocorreram atos de revolta, de resistência e de desobediência, bem
como um número significativo de deserções. A despeito desses indícios do caráter coercitivo dessa participação na guerra ao lado dos nazistas, colocou-se a questão, depois da guerra, do grau de colaboração e comprometimento desses homens. Feitos prisioneiros de guerra no front oriental pelo Exército Vermelho, muitos deles morreram ou regressaram apenas em meados dos anos 1950. Trata-se, por definição, de uma experiência dificilmente dizível no contexto do mito de uma nação de resistentes, tão rico de sentido nas primeiras décadas do pós-guerra. A partir daí, Freddy Raphael distingue três grandes etapas: à memória envergonhada de uma
geração perdida seguiu-se a das associações de desertores, evadidos e recrutados a forca que
lutam pelo reconhecimento de uma situação valorizadora das vítimas e dos "Malgré nous",
sublinhando sua atitude de recusa e de resistência passiva. Mas hoje, essa memória canalizada e
esterilizada se revolta e se afirma a partir de um sentimento de absurdo e de abandono. Ela se
considera mal compreendida e vilipendiada e se engaja num combate contestatório e militante.13
A memória subterrânea dos recrutados a força alsacianos toma a dianteira e se crige então contra
aqueles que tentaram forjar um mito, a fim de eliminar o estigma da vergonha: "A organização
das lembranças se articula igualmente com a vontade de denunciar aqueles aos quais se atribui a
maior responsabilidade pelas afrontas sofridas... Parece, no entanto, que a culpabilidade alemã
como fator de reorganização das lembranças intervém relativamente pouco; em todo caso, sua
incidência é significativamente reduzida em comparação com a denúncia da barbárie russa, bem
como da covardia e da indiferença francesas."14 No momento do retorno do reprimido, não é o
autor do "crime" (a Alemanha) que ocupa o primeiro lugar entre os acusados, mas aqueles que,
ao forjar uma memória oficial, conduziram as vítimas da história ao silêncio e à renegação de si
mesmas.
Esse mecanismo é comum a muitas populações fronteiriças da Europa que, em lugar de
poderem agir sobre sua história, freqüentemente se submeteram a ela de bom ou mau grado:
"Meu avô francês foi feito prisioneiro pelos prussianos em 1870; meu pai alemão foi feito
prisioneiro pelos franceses em 1918; eu, francês, fui feito prisioneiro pelos alemães em junho de
1940, e depois, recrutado a força pela Wehrmacht em 1943, fui feito prisioneiro pelos russos em
1945. Veja o senhor que nós temos um sentido da história muito particular. Estamos sempre do lado errado da história, sistematicamente: sempre acabamos as guerras com o uniforme do prisioneiro, o nosso único uniforme permanente."15

A função do "não-dito"
À primeira vista, os três exemplos expostos acima não têm nada em comum: a irrupção de uma memória subterrânea favorecida, quando não suscitada, por uma política de reformas que coloca em crise o aparelho do partido e do Estado; o silêncio dos deportados, vítimas por excelência, fora de suas redes de sociabilidade, mostrando as dificuldades de integrar suas lembranças na memória coletiva da nação; os recrutados a força alsacianos, remetendo à revolta da figura do "mal-amado" e do "incompreendido", que visa superar seu sentimento de exclusão e restabelecer
o que considera ser a verdade e a justiça. Mas esses exemplos têm em comum o fato de testemunharem a vivacidade das lembranças individuais e de grupos durante dezenas de anos, e até mesmo séculos.16 Opondo-se à mais legítima das memórias coletivas, a memória nacional, essas lembranças são transmitidas no
quadro familiar, em associações, em redes de sociabilidade afetiva e/ou política. Essas
lembranças proibidas (caso dos crimes estalinistas), indizíveis (caso dos deportados) ou vergonhosas (caso dos recrutados à força) são zelosamente guardadas em estruturas de comunicação informais e passam despercebidas pela sociedade englobante. Por conseguinte, existem nas lembranças de uns e de outros zonas de sombra, silêncios, "não-ditos". As fronteiras desses silêncios e "não-ditos" com o esquecimento definitivo e o reprimido inconsciente não são evidentemente estanques e estão em perpétuodeslocamento. Essa tipologia de discursos, de silêncios, e também de alusões e metáforas, é moldada pela angústia de não encontrar uma escuta, de ser punido por aquilo que se diz, ou, ao menos, de se expor a mal-entendidos. No plano coletivo, esses processos não são tão diferentes dos mecanismos psíquicos ressaltados por Claude Olievenstein: "A linguagem e apenas a vigia da angústia... Mas a linguagem se condena a ser impotente porque organiza o distanciamento
daquilo que não pode ser posto à distância. É aí que intervém, com todo o poder, o discurso interior, o compromisso do não-dito entre aquilo que o sujeito se confessa a si mesmo e aquilo que ele pode transmitir ao exterior."18
A fronteira entre o dizível e o indizível, o confessável e o inconfessável, separa, em nossos exemplos, uma memória coletiva subterrânea da sociedade civil dominada ou de grupos específicos, de uma memória coletiva organizada que resume a imagem que uma sociedade majoritária ou o Estado desejam passar e impor.
Distinguir entre conjunturas favoráveis ou desfavoráveis às memórias marginalizadas é de saída reconhecer a que ponto o presente colore o passado. Conforme as circunstâncias, ocorre a emergência de certas lembranças, a ênfase é dada a um ou outro aspecto. Sobretudo a lembrança de guerras ou de grandes convulsões internas remete sempre ao presente, deformando e
reinterpretando o passado. Assim também, há uma permanente interação entre o vivido e o aprendido, o vivido e o transmitido. E essas constatações se aplicam a toda forma de memória, individual e coletiva, familiar, nacional e de pequenos grupos.19 O problema que se coloca a longo prazo para as memórias clandestinas e inaudíveis é o de sua transmissão intacta até o dia em que elas possam aproveitar uma ocasião para invadir o espaço público e passar do "não-dito" à contestação e à reivindicação; o problema de toda memória oficial é o de sua credibilidade, de
sua aceitação e também de sua organização. Para que emeria nos discursos políticos um fundo comum de referências que possam constituir uma memória nacional, um intenso trabalho de organização é indispensável para superar a simples "montagem" ideológica, por definição precária e frágil.

O enquadramento da memória

Estudar as memórias coletivas fortemente constituídas, como a memória nacional, implica preliminarmente a análise de sua função. A memória, essa operação coletiva dos acontecimentos e das interpretações do passado que se quer salvaguardar, se integra, como vimos, em tentativas mais ou menos conscientes de definir e de reforçar sentimentos de pertencimento e fronteiras sociais entre coletividades de tamanhos diferentes: partidos, sindicatos, igrejas, aldeias, regiões,
clãs, famílias, nações etc. A referência ao passado serve para manter a coesão dos grupos e das instituições que compõem uma sociedade, para definir seu lugar respectivo, sua complementariedade, mas também as oposições irredutíveis.
Manter a coesão interna e defender as fronteiras daquilo que um grupo tem em comum, em que se inclui o território (no caso de Estados), eis as duas funções essenciais da memória comum.
Isso significa fornecer um quadro de referências e de pontos de referência. É portanto absolutamente adequado falar, como faz Henry Rousso, em memória enquadrada, um termo mais específico do que memória coletiva.20 Quem diz "enquadrada" diz "trabalho de enquadramento".21 Todo trabalho de enquadramento de uma memória de grupo tem limites, pois ela não pode ser construída arbitrariamente. Esse trabalho deve satisfazer a certas exigências de
justificação.22 Recusar levar a sério o imperativo de justificação sobre o qual repousa a possibilidade de coordenação das condutas humanas significa admitir o reino da injustiça e da violência. À luz de tudo o que foi dito acima sobre as memórias subterrâneas, pode-se colocar a
questão das condições de possibilidade e de duração de uma memória imposta sem a
preocupação com esse imperativo de justificação. Nesse caso, esse imperativo pode se impor após adiamentos mais ou menos longos. Ainda que quase sempre acreditem que "o tempo trabalha a seu favor" e que "o esquecimento e o perdão se instalam com o tempo", os dominantes freqüentemente são levados a reconhecer, demasiado tarde e com pesar, que o intervalo pode
contribuir para reforçar a amargura, o ressentimento e o ódio dos dominados, que se exprimem então com os gritos da contraviolência.
O trabalho de enquadramento da memória se alimenta do material fornecido pela história. Esse material pode sem dúvida ser interpretado e combinado a um sem-número de referências
associadas; guiado pela preocupação não apenas de manter as fronteiras sociais, mas também de modificá-las, esse trabalho reinterpreta incessantemente o passado em função dos combates do
presente e do futuro. Mas, assim como a exigência de justificação discutida acima limita a falsificação pura e simples do passado na sua reconstrução política, o trabalho permanente de reinterpretação do passado é contido por uma exigência de credibilidade que depende da
coerência dos discursos sucessivos. Toda organização política, por exemplo - sindicato, partido etc. -, veicula seu próprio passado e a imagem que ela forjou para si mesma. Ela não pode mudar de direção e de imagem brutalmente a não ser sob risco de tensões difíceis de dominar, de cisões
e mesmo de seu desaparecimento, se os aderentes não puderem mais se reconhecer na nova imagem, nas novas interpretações de seu passado individual e no de sua organização. O que está em jogo na memória é também o sentido da identidade individual e do grupo. Temos exemplos
disso por ocasião de congressos de partidos em que ocorrem reorientações que produzem rachas, mas também por ocasião de uma volta reflexiva sobre o passado nacional,23 como a passagem, na
França, de uma memória idealizante, que exagera o papel da Resistência, a uma visão mais realista que reconhece a importância da colaboração.24
Esse trabalho de enquadramento da memória tem seus atores profissionalizados, profissionais
da história das diferentes organizações de que são membros, clubes e células de reflexão. Esse
papel existe também, embora de maneira menos claramente definida, nas associações de deportados ou de ex-combatentes. Pode-se perceber isso quando se aborda, no contexto de uma pesquisa de história oral, os responsáveis por tais associações. Em minha pesquisa sobre as
sobreviventes do campo de Auschwitz-Birkenau, uma das responsáveis pela associação me disse,
antes de me pôr em contato com algumas de suas companheiras: "O senhor deve compreender
que nós nos consideramos um pouco como as guardiãs da verdade." Esse trabalho de controle da
imagem da associação implica uma oposição forte entre o "subjetivo" e o "objetivo", entre a
reconstrução de fatos e as reações e sentimentos pessoais. A escolha das testemunhas feita pelas
responsáveis pela associação é percebida como tanto mais importante quanto a inevitável
diversidade dos testemunhos corre sempre o risco de ser percebida como prova da
inautenticidade de todos os fatos relatados. Dentro da preocupação com a imagem que a
associação passa de si mesma e da historia que é sua razão de ser, ou seja, a memória de seus
deportados, é preciso portanto escolher testemunhas sóbrias e confiáveis aos olhos dos dirigentes,
e evitar que "mitômanos que nós também temos" tomem publicamente a palavra.25
Se o controle da memória se estende aqui à escolha de testemunhas autorizadas, ele é efetuado
nas organizações mais formais pelo acesso dos pesquisadores aos arquivos e pelo emprego de
"historiadores da casa".
Além de uma produção de discursos organizados em torno de acontecimentos e de grandes
personagens, os rastros desse trabalho de enquadramento são os objetos materiais: monumentos, museus, bibliotecas etc.26 A memória é assim guardada e solidificada nas pedras: as pirâmides,
os vestígios arqueológicos, as catedrais da Idade Média, os grandes teatros, as óperas da época
burguesa do século XIX e, atualmente, os edifícios dos grandes bancos. Quando vemos esses
pontos de referência de uma época longínqua, freqüentemente os integramos em nossos próprios
sentimentos de filiação e de origem, de modo que certos elementos são progressivamente
integrados num fundo cultural comum a toda a humanidade. Nesse sentido, não podemos nós
todos dizer que descendemos dos gregos e dos romanos, dos egípcios, em suma, de todas as
culturas que, mesmo tendo desaparecido, estão de alguma forma à disposição de todos nós? O
que aliás não impede que aqueles que vivem nos locais dessas heranças extraiam disso um orgulho especial.
Nas lembranças mais próximas, aquelas de que guardamos recordações pessoais, os pontos de referência geralmente apresentados nas discussões são, como mostrou Dominique Veillon, de
ordem sensorial: o barulho, os cheiros, as cores. Em relação ao desembarque da Normandia e à
libertação da França, os habitantes de Caen ou de Saint-Lô, situadas no centro das batalhas, não
atribuem um lugar central em suas recordações à data do acontecimento, lembrada em inúmeras
publicações e comemorações - o 6 de junho de 1944 -, e sim aos roncos dos aviões, explosões,
barulho de vidros quebrados, gritos de terror, choro de crianças. Assim também com os cheiros:
dos explosivos, de enxofre, de fósforo, de poeira ou de queimado, registrados com precisão.27
Ainda que seja tecnicamente difícil ou impossível captar todas essas lembranças em objetos de
memória confeccionados hoje, o filme é o melhor suporte para fazê-lo: donde seu papel crescente
na formação e reorganização, e portanto no enquadramento da memória. Ele se dirige não apenas
às capacidades cognitivas, mas capta as emoções. Basta pensar no impacto do filme Holocausto,
que, apesar de todas as suas fraquezas, permitiu captar a atenção e as emoções, suscitar questões
e assim forçar uma melhor compreensão desse acontecimento trágico em programas de ensino e
pesquisa e, indiretamente, na memória coletiva. A obra monumental de Lanzinann, Shoah, sob
todos os aspectos fora de comparação com o filme de grande público Holocausto, quer impedir o
esquecimento pelo testemunho do insustentável.
O filme-testemunho e documentário tornou-se um instrumento poderoso para os rearranjos
sucessivos da memória coletiva e, através da televisão, da memória nacional. Assim, os filmes Le
chagrin et la pitié e depois Français si' vous saviez desempenharam um papel-chave na mudança
de apreciação do período de Vichy por parte da opinião pública francesa, donde as controvérsias
que esses filmes suscitaram e sua proibição na televisão durante longos anos.28
Vê-se que as memórias coletivas impostas e defendidas por um trabalho especializado de
enquadramento, sem serem o único fator aglutinador, são certamente um ingrediente importante
para a perenidade do tecido social e das estruturas institucionais de uma sociedade. Assim, o
denominador comum de todas essas memórias, mas também as tensões entre elas, intervêm na
definição do consenso social e dos conflitos num determinado momento conjuntural. Mas
nenhum grupo social, nenhuma instituição, por mais estáveis e sólidos que possam parecer, têm
sua perenidade assegurada. Sua memória, contudo, pode sobreviver a seu desaparecimento,
assumindo em geral a forma de um mito que, por não poder se ancorar na realidade política do momento, alimenta-se de referências culturais, literárias ou religiosas. O passado longínquo pode
então se tornar promessa de futuro e, às vezes, desafio lançado à ordem estabelecida.
Observou-se a existência numa sociedade de memórias coletivas tão numerosas quanto as unidades que compõem a sociedade. Quando elas se integram bem na memória nacional dominante, sua coexistência não coloca problemas, ao contrário das memórias subterrâneas
discutidas acima. Fora dos momentos de crise, estas últimas são difíceis de localizar e exigem
que se recorra ao instrumento da história oral. Indivíduos e certos grupos podem teimar em
venerar justamente aquilo que os enquadradores de uma memória coletiva em um nível mais
global se esforçam por minimizar ou eliminar. Se a análise do trabalho de enquadramento de seus
agentes e seus traços materiais é uma chave para estudar, de cima para baixo, como as memórias
coletivas são construídas, desconstruídas e reconstruídas, o procedimento inverso, aquele que,
com os instrumentos da história oral, parte das memórias individuais, faz aparecerem os limites
desse trabalho de enquadramento e, ao mesmo tempo, revela um trabalho psicológico do indivíduo que tende a controlar as feridas, as tensões e contradições entre a imagem oficial do passado e suas lembranças pessoais.

O mal do passado

Tais dificuldades e contradições são particularmente marcadas em países que atravessaram guerras civis num passado próximo, como a Espanha, a Áustria ou a Grécia. Um outro exemplo
muito ilustrativo são as discussões na Alemanha sobre o fim da Segunda Guerra Mundial. Foi
uma libertação ou uma guerra perdida, ou as duas coisas ao mesmo tempo? Como organizar a
comemoração de um acontecimento que provoca tantos sentimentos ambivalentes, perpassando
não apenas todas as organizações políticas, mas muitas vezes um mesmo indivíduo?
Do lado oposto, a vontade de esquecer os traumatismos do passado freqüentemente surge em
resposta à comemoração de acontecimentos dilaceradores. Uma análise de conteúdo de cerca de
quarenta relatos autobiográficos de mulheres sobreviventes do campo de concentração de
Auschwitz-Birkenau, publicados em francês, inglês e alemão, e completados por entrevistas,
revela em muitos casos o desejo, simultâneo ao regresso do campo, de testemunhar e esquecer
para poder retomar uma vida "normal".29 Muitas vezes também o silêncio das vítimas internadas
oficialmente nos campos por motivos outros que não "políticos" reflete uma necessidade de fazer
boa figura diante das representações dominantes que valorizam as vítimas da perseguição política
mais que as outras. Assim, o fato de ter sido condenada por "vergonha racial", delito que,
segundo a legislação de 1935, proibia as relações sexuais entre "arianos" e "judeus", constituiu
um dos maiores obstáculos que uma das mulheres entrevistadas sentia para falar de si mesma.30
Uma pesquisa de história oral feita na Alemanha junto aos sobreviventes homossexuais dos
campos comprova tragicamente o silêncio coletivo daqueles que, depois da guerra, muitas vezes
temeram. que a revelação das razões de seu internamento pudesse provocar denúncia, perda de
emprego ou revogação de um contrato de locação.31 Compreende-se por que certas vítimas da
máquina de repressão do Estado-SS - os criminosos, as prostitutas, os "associais", os
vagabundos, os ciganos e os homossexuais - tenham sido conscienciosamente evitadas na maioria das "memórias enquadradas" e não tenham praticamente tido voz na historiografia. Pelo
fato de a repressão de que são objeto ser aceita há muito tempo, a história oficial evitou também
durante muito tempo submeter a intensificação assassina de sua repressão sob o nazismo a uma
análise científica.
Assim como uma "memória enquadrada", uma história de vida colhida por meio da entrevista
oral, esse resumo condensado de uma história social individual, é também suscetível de ser
apresentada de inúmeras maneiras em função do contexto no qual é relatada. Mas assim como no
caso de uma memória coletiva, essas variações de uma história de vida são limitadas. Tanto no
nível individual como no nível do grupo, tudo se passa como se coerência e continuidade fossem
comumente admitidas como os sinais distintivos de uma memória crível e de um sentido de
identidade assegurados.32
Em todas as entrevistas sucessivas - no caso de histórias de vida de longa duração - em que a
mesma pessoa volta várias vezes a um número restrito de acontecimentos (seja por sua própria
iniciativa, seja provocada pelo entrevistador), esse fenômeno pode ser constatado até na
entonação. A despeito de variações importantes, encontra-se um núcleo resistente, um fio
condutor, uma espécie de leit-motiva em cada história de vida. Essas características de todas as
histórias de vida sugerem que estas últimas devem ser consideradas como instrumentos de
reconstrução da identidade, e não apenas como relatos factuais. Por definição reconstrução a
posteriori, a historia de vida ordena acontecimentos que balizaram uma existência. Além disso,
ao contarmos nossa vida, em geral tentamos estabelecer Lima certa coerência por meio de laços
lógicos entre acontecimentoschaves (que aparecem então de uma forma cada vez mais
solidificada e estereotipada), e de uma continuidade, resultante da ordenação cronológica.
Através desse trabalho de reconstrução de si mesmo o indivíduo tende a definir seu lugar social e
suas relações com os outros.
Pode-se imaginar, para aqueles e aquelas cuja vida foi marcada por múltiplas rupturas e
traumatismos, a dificuldade colocada por esse trabalho de construção de uma coerência e de uma
continuidade de sua própria história. Assim como as memórias coletivas e a ordem social que
elas contribuem para constituir, a memória individual resulta da gestão de um equilíbrio precário,
de um sem-número de contradições e de tensões. Encontramos traços disso em nossa pesquisa
sobre as mulheres sobreviventes do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, sobretudo
entre aquelas para as quais a inexistência de um engajamento político impossibilitou conferir um
sentido mais geral ao sofrimento individual. Assim, as dificuldades e bloqueios que
eventualmente, surgiram ao longo de uma entrevista só raramente resultavam de brancos da
memória ou de esquecimentos, mas de uma reflexão sobre a própria utilidade de falar e transmitir
SCLI passado. Na ausência de toda possibilidade de se fazer compreender, o silêncio sobre si
próprio - diferente do esquecimento - pode mesmo ser uma condição necessária (presumida ou
real) para a manutenção da comunicação com o meio-am6i ente, como no caso de uma
sobrevivente judia que escolheu permanecer na Alemanha.
Uma entrevista feita com uma deportada residente em Berlim mostrou que um passado que
permanece mudo é muitas vezes menos o produto do esquecimento do que de um trabalho de
gestão da memória segundo as possibilidades de comunicação. Durante toda a entrevista, a
significação das palavras "alemã" e "judia" se alterou em função das situações que apareciam no
relato. Ao utilizar esses termos, essa mulher ora se integrava, ora se excluía do grupo e das
características por eles designados. Da mesma forma, o desenrolar dessa entrevista revelou que
32 M. Pollak, "Encadrement et silence: le travail de la mémoire", Pénélope, 12, 1985, p. 37. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, n. 3, 1989, p. 3-15.
ela havia organizado toda a sua vida social em Berlim não em torno da possibilidade de poder falar de sua experiência no campo, mas de uma maneira capaz de lhe proporcionar um sentimento de segurança, ou seja, de ser compreendida sem ter que falar sobre isso.33 Esse exemplo sugere que mesmo no nível individual o trabalho da memória é indissociável da organização social da vida. Para certas vítimas de uma forma limite da classificação social, aquela que quis reduzi-las à condição de "sub-homens", o silêncio, além da acomodação ao meio social, poderia representar também uma recusa em deixar que a experiência do campo, uma situação limite da experiência humana, fosse integrada em uma forma qualquer de "memória enquadrada" que, por princípio, não escapa ao trabalho de definição de fronteiras sociais. É como se esse sofrimento extremo exigisse uma ancoragem numa memória muito geral, a da
humanidade, uma memória que não dispõe nem de porta-voz nem de pessoal de enquadramento adequado.




SOBRE A ATUALIDADE DO CONCEITO DE INDÚSTRIA CULTURAL
ANTÔNIO ÁLVARO SOARES ZUIN*


A verdade que, evidentemente, após a reincidência da barbárie não mais pode ser identificada com o belo e o bom, vive nos exageros da Teoria Crítica da sociedade.
(Detlev Claussen)


RESUMO: Este texto objetiva argumentar que a essência do conceito de Indústria Cultural não só permanece atual, como também é relevante para a crítica das condições sociais que fundamentam a universalização da semiformação (Halbbildung). Conclui-se que uma concepção educacional crítica, balizada nos escritos de Theodor W. Adorno, poderia oferecer subsídios iniciais para uma práxis de resistência a esse processo de debilitação da individualidade.
Palavras-chave: Indústria Cultural, Formação, Semiformação, Theodor W. Adorno, Teoria Crítica.


O atual desenvolvimento dos meios de comunicação de massa recrudesce a sensação da inexistência de qualquer tipo de obstáculo que poderia impedir as trocas de diferentes produções e valores culturais dos mais variados países do globo. Diante da possibilidade da realização dos contatos via on line, os mesmos olhares embasbacados frente à tela do computador revelam, de soslaio, o brilho da desconfiança ou mesmo da indiferença quando se deparam com um conceito tal como o de Indústria Cultural. Em uma sociedade tecnificada, nada é mais inconveniente do que a insistência, para muitos anacrônica, da reflexão crítica de que a massificação e consumo da produção cultural não implicam a concretização de uma sociedade mais justa e democrática.
Mas a fetichização da técnica e a reificação das consciências teimam em nos lembrar que as reconciliações entre o indivíduo e a sociedade, entre o desejo e a cultura não foram ainda efetivadas. O que atualmente se realiza, no dizer de Adorno, é a reconciliação forçada. Engana-se o discurso oficial que se aferra exclusivamente na evidente deficiência da escolarização formal como a causa dos problemas sociais que são vivenciados cotidianamente. Por outro lado, é também falso o arrazoado que defende a idéia de que esses mesmos problemas seriam resolvidos através do progressivo desenvolvimento linear de uma educação elementar para uma educação que produzisse pessoas consideradas cultas.
Infelizmente, essas veleidades são corriqueiramente desmentidas por acontecimentos inconcebíveis, tal como o assassinato do índio Galdino, da tribo pataxó, que foi queimado vivo por adolescentes bem nutridos e com um alto nível de escolarização formal. Quando um ato de vandalismo como esse é justificado pelos assassinos como uma brincadeira infeliz, a ponto de ser inocentado pela justiça que se compraz com essa racionalização, então justifica-se cada vez mais a necessidade de se depreender os elementos objetivos e, principalmente, subjetivos atrelados às causas da barbárie.
Tais atos são indicativos de que há uma nítida fissura entre os conteúdos ideológicos da promessa de uma vida mais justa por causa da "democratização da cultura" e o real cumprimento dessa intenção. De fato, a produção cultural que se submete quase que por completo ao seu caráter de valor afasta-se de si própria, ou seja, termina por negar toda possibilidade de felicidade ao dissimular um verdadeiro estado de liberdade.
Desta forma, este texto objetiva argumentar que a essência do conceito de Indústria Cultural não só permanece atual, como também é relevante para a crítica das condições sociais que fundamentam a universalização da semiformação (Halbbildung). Procura-se também asseverar que uma concepção educacional crítica, balizada nos escritos de Theodor W. Adorno, poderia oferecer subsídios iniciais para uma práxis de resistência a esse processo de debilitação da individualidade.
Compreende-se o conceito semiformação justamente pela tentativa de oferecimento de uma formação educacional que se faz passar pela verdadeira condição de emancipação dos indivíduos quando, na realidade, contribui decisivamente tanto para a reprodução da miséria espiritual como para a manutenção da barbárie social. E o contexto social no qual a barbárie é continuamente reiterada é o da indústria cultural hegemônica.1
O conceito de Indústria Cultural foi exposto por Adorno e Horkheimer no livro Dialética do esclarecimento: Fragmentos filosóficos. A sua profundidade pode ser identificada justamente naquilo que possui de mais ambíguo, pois se ambos os termos ¾ indústria e cultura ¾ são interdependentes, contudo não se realizam completamente. De acordo com Adorno, a Indústria Cultural se assemelha a uma indústria quando destaca a estandardização de determinado objeto ¾ os filmes de gênero western, por exemplo ¾ e quando diz respeito à racionalização das técnicas de distribuição.
Entretanto, ela não se reduz ao termo indústria pois não se refere apenas ao processo de produção. Se podemos observar um nítido processo de divisão de trabalho, de introdução de máquinas e de separação dos trabalhadores em relação aos meios de produção quando investigamos um filme (o setor central da Indústria Cultural), por outro lado, cada objeto carrega em si a marca de sua individualidade (Adorno, 1986, p. 94). E se tal objeto, ao portar algum traço característico que o faz distinguir-se do demais, permite ao sujeito alguma forma de intervenção na sociedade, fazendo crer que a hegemonia da indústria sobre a cultura não seja tão determinante, a ilusão se esfacela quando as particularidades engendradas nada mais são do que mercadorias padronizadas que podem ser trocadas e que cobram seus dividendos na consolidação da sua individualidade danificada.
Tal debilitação da individualidade é o resultado de um processo social que tem como principal característica a universalização do princípio da lógica da mercadoria, tanto na dimensão objetiva como na subjetiva. A lógica do equivalente acaba por fundamentar os alicerces do raciocínio dicotômico que consagra os rótulos daqueles que são considerados "perdedores" ou "vencedores", por exemplo. Dificulta-se a sobrevivência do pensamento crítico numa sociedade em que os indivíduos se transformam em "caixas de ressonância" de mensagens que seduzem pelo incentivo à integração, muitas vezes cega, a um coletivo regido por uma palavra de ordem autoritária. Quando as pessoas se dessensibilizam em relação aos outros e em relação a si próprias, ou quando os objetos são construídos sem o objetivo de auxiliar a composição de uma vida melhor para todos, estamos diante de um sistema social cujas relações favorecem um clima cultural simpático à reincidência de fatos tais como o assassinato do índio pataxó.
É importante destacar que quando Adorno alude para as conseqüências da fetichização da técnica no plano subjetivo não significa que ocorra qualquer tipo de defesa do desejo de mudança alicerçado numa conotação sentimental. As conseqüências provenientes do fato das pessoas se sensibilizarem em relação aos objetos, a ponto da afetividade ser trocada como qualquer outro tipo de mercadoria, não podem ser neutralizadas mediante o sorriso de contentamento do indivíduo que pensa que vale tanto quanto o dinheiro gasto na compra de seu presente.
Antes de ser um comportamento engendrado por uma patologia idiossincrática, o apogeu do fenômeno da dessensibilização revela uma incapacidade de transferência da libido para as representações de outras pessoas numa sociedade específica, ou seja, a sociedade do capitalismo transnacional. Desse modo, até mesmo a existência do esclarecimento (Aufklärung) encontra-se hoje determinada pela vontade de transformá-lo numa forma de show. Ao comentar a discussão atual sobre a chamada "noite dos cristais",2 Detlev Claussen assevera que:
O movimento hegemônico da indústria cultural, que culminou na solenidade de aniversário de cinqüenta anos da "noite dos cristais", mesclou a intenção do esclarecimento e a técnica da indústria cultural com a intenção de se conquistar o público. Por meio dessa mescla é consolidada a atitude ambivalente da maioria dos homens após Auschwitz, preservando neles próprios o anti-semitismo. (1990, p. 140)
Diante desse conturbado contexto, a mercantilização da produção simbólica possui duas tarefas fundamentais: a integração e a reconciliação forçada entre os grupos sociais desiguais entre si. Esse é o objetivo central do sistema de produção calcado na falsidade de que a massificação da cultura realmente possibilita a emancipação coletiva. Nesse reinado de clichês, tudo que possa vir a público já se encontra tão profundamente demarcado que nada pode surgir sem exibir de antemão os traços e os comportamentos demarcados pelo "gosto popular".
Na verdade, a ideologia encontra-se tão "colada" à realidade que qualquer comportamento que não se atrele ao atendimento das necessidades do consumo é rotulado como desviante. Não obstante, tem-se a impressão de que não há qualquer tipo de padronização ou uniformização do produto. Parece que vivenciamos uma identidade "única", já que nos diferenciamos de todos os outros que não usam nossas marcas sociabilizadoras, tais como as marcas dos tênis e grifes de roupas famosas.
Esta talvez seja a principal característica psicossocial do processo dissimulador da semiformação. O auspício inicial da formação burguesa ¾ de que a sociedade democrática seria principalmente constituída por um indivíduo consciente das contradições entre os seus desejos e o desenvolvimento da cultura e, portanto, do limite de suas ações e de sua intervenção social, a ponto de poder confirmar a concretização de sua atividade racional livre na universalização dos seus direitos e deveres de cidadão ¾ foi transformado no principal componente ideológico da formação que aparenta ser o que de fato não é.
O princípio burguês de individuação, cujas bases foram dolorosamente edificadas, se metamorfoseia em seu contrário, pois o engodo da personalidade bem estruturada não pode se eximir da necessidade de ser associado ao consumo de algum tipo de produto da Indústria Cultural, cuja elaboração pautou-se na mentira da primazia das necessidades básicas sobre as necessidades de consumo. Mas o indivíduo também sente que a possibilidade de usufruir da falsa experiência de ser reconhecido como "sujeito" pelos outros depende sobretudo dos signos dos bens de consumo que porta. Portanto, ele precisa se esforçar para continuar acreditando tanto na aparência da prioridade de suas necessidades básicas, no ato de consumo desses produtos, como no poder da sua vontade de se libertar completamente das amarras do trabalho entediante, a partir do momento em que, por exemplo, o riso sadomasoquista encontra seu espaço de legitimação na "divertida" comédia preconceituosa, servindo como um consolo que compensa a sua própria humilhação.
Desta feita, é equivocado o pensamento de que, quando abandonamos os locais de trabalho, podemos finalmente desfrutar momentos que permitam fazer com que nos identifiquemos como sujeitos de nossas ações. Cotidianamente repreendemos aqueles que, nessas ocasiões, nos lembram das enfadonhas situações de trabalho que são dominadas por seqüências de operações padronizadas. Todavia, esse devaneio se esvaece quando, diante de um olhar mais atento, percebemos que essas mesmas seqüências padronizadas estão também nas atividades de lazer, sem que tenhamos consciência disso. Os ritmos binários dos últimos hits são facilmente memorizados e fornecem a sensação do retorno a uma eterna banalidade.
Já os detalhes fungíveis que predominam nos mais "variados" filmes de ação, tais como a introdução musical numa seqüência da fita, fazem bem mais que nos tranqüilizar com a promessa de que o vilão terá um castigo merecido. Ambas as circunstâncias parecem estar dizendo que a vida possui sempre as mesmas tonalidades e que devemos nos habituar a seguir os compassos previamente demarcados. A provável sensação de monotonia é facilmente compensada pela felicidade de se sentir integrado.
Adorno e Horkheimer (1996, p. 28) já diziam que a "diversão é o prolongamento do trabalho no capitalismo tardio. Ela é procurada por quem quer escapar ao processo de trabalho mecanizado, para se por de novo em condições de enfrentá-lo". É interessante observar até que ponto o processo de mecanização atinge o cerne da nossa estrutura de personalidade, quando "inocentemente" dizemos a nós mesmos e aos outros que precisamos nos "desligar" do trabalho, assistindo ao filme que não exige muito esforço do pensamento, que promove o tão esperado relaxamento. Adorno desenvolve uma argumentação semelhante no texto "Tempo livre", ao comentar que a própria luta pela liberdade, bastante presente nos movimentos estudantis, foi muito bem capitalizada e funcionalizada pelas famosas indústrias do camping.
As pessoas são diariamente coagidas a exercerem algum tipo de atividade "livre". Mas a funcionalização do desejo encontra um exemplo ainda mais estarrecedor: Adorno identifica o absurdo, que não deixa de ter sua lógica na sociedade atual, de que o próprio bronzeamento da pele se transforma num fetiche. Mais do que servir para auxílio de um determinado flerte, a obrigatoriedade da tez bronzeada concerne ao necessário reconhecimento dos outros de que o indivíduo conseguiu se desvencilhar por algum tempo do trabalho, afirmando a sua pretensa liberdade. O reconhecimento da aparência de humanização denota a perpetuação da desumanização do indivíduo transformado em propaganda de si mesmo (Adorno, 1995, p. 74-75). E são essas pessoas que confundem de tal forma a personalidade com os ícones de consumo que têm mais chances de vivenciar o gosto do sucesso.
Em 1990, no congresso realizado em Berlim sobre atualidade do pensamento adorniano, Claussen já alertava para a possibilidade da própria teoria crítica ser engolfada pela Indústria Cultural nos chamados programas de auditório, bastante comuns também na televisão alemã e que pretendiam auferir o nível de "conhecimento" dos participantes que respondiam as questões feitas com banalizados conceitos de filosofia. Adorno já dizia que o processo semiformativo, no qual o conceito foi apreendido de forma medíocre, não significa o cumprimento de um primeiro estágio que deverá ser ultrapassado. Na verdade, a absorção do banalizado continua sendo cada vez mais a inimiga mortal da formação (Adorno, 1996, p. 402).
Diante desse quadro, poder-se-ia concluir que a produção e reprodução da Indústria Cultural precisariam de consumidores passivos. Mas talvez fosse correto o raciocínio contrário: os indivíduos necessitam combater, principalmente em si próprios, de forma enérgica, qualquer tipo de práxis contrária à integração pelo consumo. Para poder ser passivo, o indivíduo deve antes vivenciar ativamente a negação de si mesmo.
Não deixa de ser doloroso constatar que o progresso da universalização da lógica do equivalente cada vez mais faz com que as possibilidades emancipatórias da cultura só se conservem na dimensão ideológica. Todavia, um procedimento crítico torna-se relevante, sobretudo quando a difusão da tecnologia fornece a sensação da efetiva democratização da produção cultural. Como pudemos observar anteriormente, o desejo de que as informações veiculadas no plano global contribuam para a realização da emancipação ainda não se realizou. A Indústria Cultural afirma-se como princípio deseducativo cada vez mais. Faz-se necessária uma atitude de resistência frente a esse processo.
Trata-se de identificar na aparente democratização da produção simbólica o seu inerente potencial fascista. O preço pago pela ilusão da "inevitável" emancipação da condição de menoridade através do consumo dos produtos da Indústria Cultural precisa ser sentido, no íntimo, como sendo alto demais. Confirma-se, portanto, uma das principais hipóteses de Adorno e Horkheimer contidas na Dialética do esclarecimento: a exacerbação da Indústria Cultural ¾ incrivelmente potencializada pelo avanço das forças produtivas do capitalismo transnacional ¾ legitima a reincidência da barbárie.
A fissura entre a promessa da democratização da cultura e a conseqüente universalização da formação é fator indicativo da cumplicidade entre o discurso oficial emancipatório e as relações materiais que se aferram na dominação e na exploração das naturezas interna e externa. A sociedade tecnificada, a qual se afasta cada vez mais da sua função original de contribuir para o fim das necessidades, exige a manutenção do sofrimento humano para a consagração de sua existência.
A reincidência da barbárie não é apenas observada nos atos mais explícitos, tais como o assassinato do índio pataxó, citado na introdução desse texto. Ela também é notada no sorriso conivente daquele "indivíduo" que acha graça na anedota preconceituosa, pois teme não ser considerado membro do grupo ao qual pertence caso não proceda dessa forma, ou mesmo no consumo de produtos simbólicos que incentivam a sexualidade precoce das crianças, que ainda não possuem as capacidades afetivas e cognitivas necessárias para poderem refletir que o modelo de sexualidade imposto pelo consumo desses produtos não pode ser considerado a única alternativa para a concretização do processo de individuação.
A opulência de um ego doentio é estimulada numa sociedade cujas bases da formação sofrem diariamente abalos talvez irreparáveis. Dessa forma, o entorpecimento que tantas vezes Adorno denunciou em seus textos é combatido não através daquele pedido de ajuda, o qual permitia ouvir o sussurro de um ego combalido que clamava pelo fim de sua própria debilidade. Ele é "contestado" por meio de mecanismos de defesa que comprazem aos ditames do consumo dos produtos "culturais", tais como os produtos que prometem o "rápido e milagroso" emagrecimento às custas da anorexia ou dos brincos e tatuagens colocados nos lábios e narinas dos jovens.
O anseio de que essa sensação de insatisfação pode ser amainada pelas práticas sadomasoquistas, que já são verificadas com uma freqüência que não deve ser subestimada, precisa ser cada vez mais investigado por aqueles que não se conformam com a mentira que afirma a concretização da felicidade aqui e agora. É nesse sentido que a possibilidade da reapropriação das potencialidades emancipatórias da formação não se faz apenas desejada. Ela é uma das principais condições de resistência à reprodução da dessensibilização e da barbárie. Ora, a reapropriação da capacidade de autocrítica da formação passa também por uma concepção educacional pautada nos escritos dos pensadores da chamada Teoria Crítica, sobretudo Theodor W. Adorno. A busca pela efetiva aproximação entre os desejos individuais e as regras e leis sociais deve ser baseada na constatação de que, na atual sociedade, observa-se um hiato muito grande entre os conteúdos das promessas de igualdade e suas respectivas realizações. Essa crítica da ideologia também necessita estar presente durante a realização do educativo dentro ou fora das escolas. Não há mais como se aquietar diante da dissimulação do processo "formativo" atual que, desde o início, compraz sim à semiformação não ao sentido emancipatório da Bildung. Assim, faz-se justiça àqueles que são cotidianamente injustiçados, exatamente porque suas existências desiguais são verdadeiramente afirmadas como tais, sem eufemismo. A luta pela verdadeira felicidade deve estar atrelada ao reco-nhecimento do estado atual de infelicidade.
É nesse sentido que uma concepção educacional que se julga crítica poderia contribuir para o processo de auto-reflexão da formação que se converteu em semiformação. Se essa concepção educacional também assume como sua a tarefa de auxiliar o exercício da crítica da ideologia, então talvez não fosse equivocado aludir à observação de Adorno de que também tem algo de prático a denúncia de que a exigência, cotidianamente reiterada, de submissão da teoria em relação à prática significa "anular o conteúdo da verdade e condenar a prática à loucura" (Adorno, 1992, p. 79). Nos dias atuais, torna-se cada vez mais relevante incentivar a autocrítica daqueles que se julgam educados, mas que colaboram decisivamente tanto para sua própria debilidade quanto para a dos outros.
Esta forma de conceber a educação poderia colaborar para a repro-dução de um clima cultural que favorecesse aquela disposição de estimular a continuidade do conteúdo apreendido com a própria formação do in-divíduo. O educador que faz sua autocrítica, ao se preocupar com a com-preensão dos motivos que incentivam a distância entre as teorias sobre o preconceito e a práxis preconceituosa dos mesmos alunos, os quais memorizam os conteúdos mas não deixam de fazer anedotas racistas, por exemplo, trabalha para que o fosso entre o conceito e a práxis emancipadora não seja tão grande, apesar da sociedade atual incentivar exatamente a per-manência desta distância. A concepção educacional que se pauta na denúncia da falsa reconciliação atual ¾ a qual dissimula uma vida plena de liberdade, mas que prima pela sua ausência ¾ fala também em nome da possível reconciliação entre aqueles conteúdos emancipatórios da formação e uma vida menos injusta. Uma vida cujo desejo verdadeiro de uma utilização mais humana da técnica não sirva como justificativa para a perpetuação do processo de industrialização da cultura, que prima pela regressão das ca-pacidades humanas e, portanto, pela reincidência da barbárie.


Perigo, Probabilidade e Oportunidade: A Linguagem dos Riscos na Mídia


Resumo
Partindo do pressuposto que risco é um conceito central na sociedade contemporânea, este estudo teve por objetivo entender o papel da mídia na circulação e consolidação da linguagem dos riscos. Tendo por base estudos anteriores, optou-se por trabalhar com um único jornal, a Folha de S. Paulo, sendo adotados três procedimentos de pesquisa: 1) mapeamento da diversidade de termos utilizados para falar sobre a possibilidade de ocorrência de eventos concebidos como ocasião para ganho ou perda; 2) análise diacrônica de uma amostra representativa de matérias com a palavra risco no título (1921 e 1998); 3) análise do uso da linguagem de risco por área temática (CD-Rom Folha, 1994-1997). Os resultados sugerem que o uso da linguagem dos riscos na mídia é recente e diversificado, apoiando-se ora na linguagem formal do cálculo de risco, ora no uso metafórico do termo, para falar de desordem na sociedade contemporânea.
Palavras-chave: Linguagem dos riscos; produção de sentidos; mídia; modernidade reflexiva



Partindo do pressuposto que risco é um conceito central na sociedade contemporânea, este estudo teve por objetivo entender o papel da mídia na circulação e consolidação da linguagem dos riscos.
O risco é, talvez, inerente à vida: viver, diz o ditado, é um risco. Entretanto, o sentido que lhe é dado está implicitamente vinculado ao contexto histórico em que os vários riscos se concretizam. É de especial interesse a progressiva expansão das fronteiras espaciais e temporais que fazem com que os riscos possam ser percebidos para além das subjetividades individuais, para além das fronteiras territoriais e até mesmo para além das fronteiras planetárias. São essas transformações, intrinsecamente associadas aos avanços das tecnologias de comunicação, que possibilitam afirmar que estamos vivendo uma transição que nos leva do risco como fenômeno focal da sociedade moderna (Douglas, 1992) à sociedade de risco (Beck, 1992).
A noção de risco que é própria da modernidade está intimamente relacionada à incorporação cultural da noção de probabilidade. Mary Douglas (1992) considera que risco é a maneira moderna de avaliar o perigo em termos de probabilidade, num contexto de incerteza. A noção moderna de risco emerge, segundo ela, no século dezessete no contexto dos jogos de azar. É incorporada, no século dezoito, no seguro marítimo e, no século dezenove, na economia.
Tendo sido a noção construída num momento histórico em que a sociedade hierárquica se transformava lentamente em sociedade baseada no individualismo (Dumont, 1985) – com a contrapartida da necessária separação entre esfera pública e privada, e entre direitos individuais e bem coletivo (Habermas, 1983) –, parece ter trazido em seu bojo a necessidade de um olhar disciplinador sobre os excessos de risco na esfera individual. O risco individual de ganho e perda precisou, então, ser cerceado pelas instituições públicas – jurídicas, econômicas, sanitárias – apoiadas por corpos de saberes específicos.
Foi como instância legitimadora desses saberes que a ciência tornou-se, na modernidade clássica (ou sociedade industrial, segundo Beck, 1992), o mais importante apoio para a gestão pública dos riscos. Gerir implica em criar regras e mecanismos de vigilância; implica, ainda, em fomentar a consciência individual que possibilita o autocontrole e que encontra na culpa e na educação tão poderosos aliados (Foucault, 1977). Essa contraposição entre a responsabilidade individual e o bem coletivo viria constituir-se como um dos fundamentos da subjetividade nesse período histórico.
A literatura sobre risco sugere que a modernidade reflexiva (ou sociedade de risco, segundo Beck, 1992) inaugura novas possibilidades de significação do risco. O princípio central da sociedade industrial, segundo Beck, era a distribuição dos bens. Já a sociedade de risco teria como questão central a distribuição dos males ou dos perigos.
Vários autores (entre eles, Beck, 1992, 1998 e Giddens 1998) ponderam que esses riscos não estão mais limitados temporalmente (na medida em que futuras gerações podem ser afetadas) e nem espacialmente, pois muitas vezes extrapolam as fronteiras nacionais. A reflexão necessária deixa, portanto, de estar circunscrita a grupos e localidades, tendendo à globalização na medida em que os riscos modernos (ou a consciência desses riscos) revelam ameaças irreversíveis à vida das plantas, dos animais e dos seres humanos desta e de futuras gerações.
É nossa posição que a mídia tem um papel fundamental nesse processo de ressignificação da noção de risco, seja porque é onipresente no mundo contemporâneo (e, portanto, instrumental na conformação da consciência moderna) ou porque confere uma visibilidade sem precedente aos acontecimentos (incluindo aí as novas informações e descobertas) que leva a uma re-configuração das fronteiras entre o espaço público e privado, produzindo novas formas de comunicação e interação.
Apoiando-nos nas reflexões de John Thompson, definimos mídia como a "produção institucionalizada e a difusão generalizada de bens simbólicos através da fixação e transmissão de informação e conteúdos simbólicos" (1995, p. 26). Trata-se, segundo este autor, de um sistema cultural complexo que abarca tanto a dimensão simbólica, "relacionada com a produção, armazenagem e circulação de materiais que têm significado para os indivíduos que os produzem e recebem"(1995, p. 11), como a dimensão contextual – temporal e espacial – que leva à considerar seus produtos como fenômenos sociais situados em contextos que têm aspectos técnicos e comunicativos, com propriedades estruturadas e estruturantes.
Os recentes avanços tecnológicos têm trazido mudanças importantes na comunicação midiática, introduzindo transformações substantivas nas formas de experienciar a subjetividade que podem ser apreendidas a partir das novas possibilidades de interação. Para além das modalidades clássicas da comunicação face-a-face e mediada pela tecnologia, a interação midiática passa a incluir também, seguindo as reflexões de Thompson (1995), a "quase-interação-mediada".
A quase-interação-mediada refere-se às relações sociais produzidas com o advento da comunicação de massa. Como na interação mediada, a comunicação se processa rompendo barreiras espaciais e/ou temporais, mas difere em dois aspectos: primeiro, porque a comunicação não é dirigida especificamente a uma pessoa (mas a um outro generalizado); segundo, porque o diálogo entre os falantes não é imediatamente recíproco, como em uma comunicação pelo telefone. Na quase-interação-mediada, os participantes não dispõem da troca direta, podendo haver uma expressiva lacuna temporal entre a emissão e a recepção, por exemplo: livros, jornais, revistas, televisão e sites da Internet (com exceção das salas de bate papo).
Partindo do pressuposto de que as interações são sempre mediadas, seja por dispositivos eletrônicos ou pela diversidade de vozes (instituições, amigos, leituras, etc)e pelo jogo de posicionamentos que se fazem presentes no momento da dialogia, os adjetivos mediada e quase-mediada são aqui empregados para demarcar níveis distintos de interação humana gerados pela inovação tecnológica (Medrado, 1999).
É possível propor, assim, que além de ser um veículo poderoso que cria e faz circular conteúdos simbólicos, a mídia tem um poder transformador, ainda pouco estudado, de reestruturação dos espaços de interação propiciando novas configurações aos esforços de produção de sentido.

Mídia e Produção de Sentidos Sobre os Riscos Contemporâneos
A produção de sentido sobre risco, as práticas sociais do cotidiano, as transformações históricas dos repertórios de risco (associadas, evidentemente, aos contextos históricos de sua produção) e a centralidade da mídia na criação de espaços de significação integram-se, neste estudo, através da perspectiva teórica que busca desvendar a produção de sentido no cotidiano de nossas vidas (Spink, 1999).
A produção de sentidos é tomada como fenômeno lingüístico (na medida em que a linguagem é uma prática social geradora de sentido) que se expressa nas práticas discursivas que atravessam o cotidiano colocando em movimento os repertórios interpretativos culturalmente disponíveis. Trata-se de referencial ancorado no construcionismo (Gergen, 1985; Ibáñez, 1993;) e alinhado aos psicólogos sociais que trabalham de formas variadas com práticas discursivas (Billig, 1996; Parker, 1989; Potter, 1996; Shotter, 1993; entre outros).
Nesta proposta teórica o sentido no cotidiano decorre do uso que fazemos, em nossas práticas discursivas, dos repertórios interpretativos que dispomos. Repertórios interpretativos (Potter & Reicher, 1987) são conjuntos de termos, descrições, lugares comuns e figuras de linguagem que estão freqüentemente agrupadas em torno de metáforas ou imagens, utilizando construções e estilos gramaticais próprios. São as unidades de construção dos discursos e demarcam o rol de possibilidades das construções discursivas.
A produção de sentido ocorre na ação social. Aliam-se, nesta proposição, a tradição hermenêutica de processo criativo – mediado pelas expectativas e pressupostos que o indivíduo traz para a situação –, a tradição interacionista de valorização da presença do outro (real ou imaginada) e a onipresença da linguagem na perspectiva das práticas discursivas, aqui concebidas como linguagem em ação, ou seja, as maneiras a partir das quais as pessoas produzem sentidos e se posicionam em relações sociais cotidianas (Davies & Harré, 1990; Spink & Medrado, 1999).
Ao tomarmos a mídia como objeto deste estudo, focalizamos, sobretudo, seu potencial de fazer circular repertórios interpretativos associados ao conceito de risco, tornando presente (até mesmo recriando) as vozes de especialistas de diferentes domínios de saber para falar de experiências do cotidiano. O processo de produção de sentidos propriamente dito, seja na produção ou recepção da mensagem, obviamente extrapola os objetivos do estudo.
Importante frisar, ainda, que ao optarmos por trabalhar com a circulação de repertórios interpretativos na mídia estamos tomando seus registros como documentos de domínio público: produtos sociais tornados públicos que, como ensina Peter Spink (1999),
"Eticamente estão abertos para análise por pertencerem ao espaço público, por terem sido tornados públicos de uma forma que permite a responsabilização. Podem refletir as transformações lentas em posições e posturas institucionais assumidas pelos aparelhos simbólicos que permeiam o dia-a-dia ou, no âmbito das redes sociais, pelos agrupamentos e coletivos que dão forma ao informal, refletindo o ir e vir de versões circulantes assumidas ou advogadas" (p. 136).
Buscando entender o papel da mídia na circulação e consolidação da linguagem dos riscos na sociedade contemporânea era importante poder dispor de uma série histórica de dados que possibilitasse localizar momentos e formas distintas de uso do que denominaremos, a partir de agora, a linguagem dos riscos. Com base nos levantamentos anteriores (Spink, 1997, 2001) que possibilitaram situar historicamente o debate sobre riscos e formas de gerenciá-los, sabemos que o conceito consolida-se inicialmente nas áreas da Economia e da Medicina (sobretudo nas teorizações da epidemiologia). Sabemos, ainda, que o uso pleno do conceito, especialmente na vertente de gerenciamento conhecida como "Análise dos Riscos", data dos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial. A busca deste tempo longo da circulação dos repertórios sobre risco para o público geral exigiu, portanto, a escolha de um veículo que possibilitasse a realização de um levantamento diacrônico de matérias publicadas.
Estudo anterior sobre "A construção da AIDS-notícia" (Spink e cols. 2001), utilizando as quatro agências de notícia mais importantes do Brasil em termos de reconhecimento público e de circulação2, havia nos sensibilizado para o fato de que a Folha de São Paulo (FSP) dispunha de um acervo completo de seus exemplares, desde 1921, de fácil acesso ao público, além de um banco de dados informatizado e disponível aos interessados (a partir de 1994). Argumentando que qualquer jornal fornece uma "janela para o mundo", refletindo, pela própria natureza do jornalismo, as questões que são definidas num dado período histórico como "notícia ou informação", decidimos focalizar um único jornal, tomando-o como "vitrine para as idas e vindas dos sentidos" (P. Spink, 1999, p. 139)3.

Procedimentos de Pesquisa
A metodologia empregada para coleta de dados envolveu três procedimentos distintos. Como primeira aproximação da linguagem dos riscos foi feito um levantamento dos termos usados para falar sobre risco. Utilizamos para este fim o CD-Rom Folha relativo aos anos de 1994 a 1997. Este arquivo reúne 98,2% dos textos jornalísticos publicados pelo jornal em cada ano. Não inclui os cadernos regionais, anúncios, fascículos, imagens e material gráfico (como tabelas e mapas).
O segundo procedimento visou a análise diacrônica do emprego da palavra risco, utilizando uma amostra representativa (a=0,05) de matérias com a palavra risco no título publicadas na FSP de 1921 (ano da fundação do jornal) a 1998. Para o cálculo da amostra foram escolhidos aleatoriamente cinco dias por ano, de 1921 a 1998, perfazendo um total de 400 dias. 4 Como critério de reposição estabeleceu-se que: 1) quando o dia escolhido era 31 e o mês não tinha 31 dias, seria substituído pelo último dia daquele mês; 2) caso o jornal do dia amostrado não existisse no acervo, seria substituído pelo exemplar do dia seguinte.
Para realizar esse levantamento, consultamos o acervo da Biblioteca Mário de Andrade que dispunha de sistema de microfilmagem dos exemplares até o ano de 1997 e versão original do ano de 1998. Os jornais dos dias sorteados foram lidos na íntegra, buscando localizar matérias que tivessem a palavra risco no título. Optou-se por esse procedimento considerando que essas matérias teriam o risco como foco específico, permitindo entender melhor o contexto de uso da linguagem dos riscos.
Os artigos assim localizados foram submetidos inicialmente à análise quantitativa buscando entender o uso dos repertórios nas diversas áreas temáticas (economia, saúde, política etc.) numa perspectiva diacrônica. A seguir, foi feita uma análise qualitativa buscando entender o contexto de uso. Nessa segunda etapa foram utilizadas três estratégias analíticas: a) o uso do termo, pautando a análise no emprego de risco como linguagem cotidiana (como perigo, portanto) ou como conceito formal (como probabilidade de ocorrência); b) o posicionamento do locutor, utilizando-se para isso as seguintes categorias: especialista, jornalista, articulista ou pessoas que viveram experiências com risco; c) o fluxo de associação de idéias, contextualizando o uso feito de risco como repertório interpretativo.
O terceiro procedimento focalizou o período mais recente buscando compreender o uso da linguagem dos riscos nas diferentes áreas temáticas. Para isso, fizemos o levantamento do total de matérias com risco no título que constavam do CD-Rom Folha, 1994-1997.
A primeira etapa analítica relativa a essa terceira fase de coleta de dados consistiu na análise quantitativa das matérias localizadas, buscando entender o emprego de risco como repertório interpretativo nas diferentes áreas temáticas. Foi feita, a seguir, uma análise qualitativa de artigos selecionados dentre o conjunto localizado no CD-Rom, obedecendo aos seguintes critérios: a) localização da notícia: todas as matérias com risco no título que apareceram como chamadas de primeira página; b) uso recente: todas as matérias referentes à áreas onde a linguagem dos riscos é de uso recente, por exemplo, meio ambiente; c) usos ambíguos: todas as matérias das temáticas "esporte", "política" e "lazer", por introduzirem novos e ambíguos usos da linguagem dos riscos; d) foco na experiência subjetiva: artigos que priorizavam o relato de pessoas que haviam vivenciado riscos; e) risco como aventura: matérias que focalizavam a positividade dos riscos.

Risco: Um Repertório cada vez mais Disponível
Como primeira aproximação para a compreensão dos usos da linguagem dos riscos buscamos entender a freqüência da palavra risco no CD-Rom Folha (1994-1997) considerando o conjunto de palavras passíveis de serem utilizadas para falar sobre a possibilidade de ocorrência de algum evento, concebido como ocasião para ganhos ou perdas. Criamos, assim, um glossário que incluía sinônimos e termos associados à origem etimológica da palavra risco (Spink, 2001).
Considerando primeiramente a freqüência das várias palavras, observa-se na Tabela 1, que risco é a mais freqüente. Seguem, em ordem de freqüência, as palavras ameaça, chance e perda; depois sorte e perigo. As demais têm presença pouco marcante.


Entre 1994 e 1997, houve um crescimento da ordem de 27,7% no uso do total de palavras associadas a risco. É possível que o crescimento vegetativo das matérias da FSP tenham acompanhado, ou mesmo sobrepujado, essa taxa de crescimento. Entretanto, a palavra risco teve uma taxa de crescimento de 50,8% , enquanto que as demais palavras de uso freqüente (ameaça, chance, perda, sorte e perigo) não chegam a atingir a marca dos 30%. É interessante observar, entretanto, que aventura, embora de uso pouco freqüente, é a palavra que apresenta a maior taxa de crescimento (85%). É possível que esse crescimento seja decorrência da recente visibilidade dos esportes radicais, como veremos na discussão sobre a linguagem dos riscos nas áreas emergentes.
Considerando, a seguir, a análise das matérias obtidas através de processo de amostragem utilizando o acervo da Biblioteca Mário de Andrade, verifica-se na Tabela 2 que foram poucas as matérias com a palavra risco no título, localizadas nos jornais dos 400 dias sorteados.5 Essas matérias começam a aparecer na década de oitenta, tornando-se mais presentes na década de noventa.


O terceiro procedimento visava a entender o contexto de uso da linguagem dos riscos nas matérias com risco no título publicadas no período de 1994 a 1997 e indexadas no CD Folha. Foram localizadas 454 matérias com risco no título: 24 em 1994, 14 em 1995, 39 em 1996 e 377 em 1997. Dito de outra forma, 83% das matérias localizadas haviam sido publicadas em 1997. Essas matérias foram analisadas pela equipe de pesquisa e classificadas em seis áreas temáticas: saúde, economia, política, esporte, lazer e meio ambiente. Um pequeno número de matérias (n=11) foi classificado como "indefinido" por não se encaixar nas áreas já consolidadas. A Figura 1 e a Tabela 3 possibilitam visualizar o crescimento de matérias com risco no título, por área, no período analisado.




Tanto a análise da amostra como da totalidade de matérias do CD-Rom Folha apontam que o uso intensivo da linguagem dos riscos é um fenômeno dos anos noventa, sendo que o uso inicia-se pelas áreas onde o conceito já estava mais consolidado: a economia e a saúde. Para as demais áreas, a linguagem dos riscos é fenômeno ainda mais recente e seu uso, como veremos adiante, é ainda bastante variado: ora fala-se a linguagem dos fatores e probabilidades de risco, ora risco é metáfora para perigos diversos.
A linguagem em uso: risco nas matérias localizadas na amostra de matérias localizadas na Biblioteca Mário de Andrade.
A leitura das 20 matérias localizadas através de processo de amostragem forneceu as primeiras pistas sobre o uso da linguagem dos riscos na mídia jornalística. Em 15 matérias, a palavra risco foi utilizada como sinônimo de perigo para falar sobre o risco de algum evento indesejado, na perspectiva das pessoas que correm riscos ou do risco propriamente dito. Nas demais, risco foi utilizado para denotar a probabilidade de ganho ou perda, no sentido mais corriqueiro associado à linguagem dos jogos (apostas, investimentos) ou no sentido mais formal de cálculo de probabilidade. Essas dimensões podem ser visualizadas na Figura 2.


O Risco como Perigo
Exemplo típico do uso cotidiano de risco como perigo, na perspectiva das pessoas que se sentem ameaçadas, é a fala de Heloísa, estudante de 20 anos, sobre a violência em São Paulo: "se a gente sai com cartão é assaltada. Se a gente sai sem ele corre o risco de apanhar" (FSP, 19/12/97, Editoria: Opinião). Já quando são os especialistas que falam das pessoas que correm risco, a linguagem recobre-se de termos técnicos que tendem a transformar "experiências com risco" em "coletivos de risco": os pedestres (matéria de 20/1/89), os incautos compradores de dólar no paralelo (matéria de 12/11/89) ou os grupos propensos a serem infectados pelo vírus da AIDS. São, portanto, pessoas que apresentam "comportamentos de riscos" (matéria de 27/9/89).
A matéria intitulada "O risco de ser pedestre", publicada em 20/1/89, é um exemplo interessante do uso da linguagem dos riscos. De autoria de arquiteto, pós-graduando em Engenharia de Transportes na Escola Politécnica da USP, a matéria trata de projeto de lei municipal que permitiria a cobrança de multas a pedestres, medida justificada pelo caráter educativo, visando "disciplinar pedestres rebeldes" que não usam a faixa para atravessar a rua. O autor inicia com uma análise técnica sobre usuários do espaço viário e o papel das multas no gerenciamento do uso e diminuição de acidentes que serve de contexto para a problematização da intenção de multar pedestres. Sem colocar em dúvida a necessidade de educar pedestres, o autor pleiteia que se priorize a conscientização dos motoristas por serem eles "a parcela com maior nível de informação e com melhores condições sócio-econômicas, mas também por serem eles os que mantêm o pé no acelerador". O risco do título é, portanto, metafórico: presta-se para falar da incidência de acidentes viários, mas também para sublinhar a falta de condições de segurança ou de exercício pleno da cidadania de uma parcela da população: os pedestres.
Nas matérias em que o foco é nos riscos em si, o objeto de risco é que tem precedência: o risco da anarquia (12/02/95), o risco de conflito (15/09/98) ou as eleições em risco no Peru (12/11/89) nas matérias que tratam de política; o risco de corte de energia (15/09/98) na área de tecnologia e ambiente; o risco de cair de classificação (futebol, 28/09/98), de rebelião na penitenciária (27/9/89), ou de desaparecer (a Associação Desportiva Araraquarense, 29/8/57; o patrimônio cultural das Universidades Públicas, 21/3/80).
Em suma, nas matérias em que risco é usado como sinônimo de perigo a palavra dá força ao argumento, ajudando a sinalizar a ameaça; mas não é parte intrínseca da explicação do fenômeno sob análise. Por exemplo, na matéria publicada em 12/2/95, intitulada "Capitalismo volta a enfrentar risco da anarquia", Luiz Gonzaga Belluzzo defende a tese que a globalização da economia vem debilitando a capacidade de decisão dos Estados. A anarquia paira, assim, como ameaça em um mercado de capitais volátil e pulverizado onde não há mais interlocutores identificáveis.

O Risco como Probabilidade
A aproximação ao conceito probabilístico de risco ocorre de várias formas e é sinalizada pelo uso do risco como adjetivação (aposta de risco, 16/03/98; operação de alto risco, 15/09/98). Foram localizadas duas matérias que exemplificam o risco-adjetivo. Ambas fazem referência à aposta, sugerindo a associação com a linguagem dos jogos – cenário em que se desenvolve o conceito de risco como probabilidade (Bernstein, 1997). A primeira, intitulada "Aposta de risco" (16/3/98) refere-se à avaliação feita pelos "tucanos" (PSDB) do desempenho de Mário Covas nas pesquisas eleitorais. A segunda ("Flamengo desiste de risco e sobe preço de ingresso") relata a "operação de alto risco" adotada pelo clube, de devolução de ingressos em caso de derrota. Face ao prejuízo, o Flamengo decidira não "apostar" novamente em seu time.
O uso pleno de risco-probabilidade, por sua vez, é sinalizado com o emprego do termo no contexto dos fatores associados ao cálculo do risco. Os três exemplos nas matérias localizadas através da amostra inserem-se na área da economia (16/10/96; 28/09/98) e da saúde (8/3/88; 16/3/98). Na economia são os fatores de riscos aos investimentos que estão em pauta. Por exemplo, a matéria intitulada "Diversificação é fundamental para diluir risco no simulado" (28/9/98) avisa: "concentrar os investimentos em poucos papéis é arriscado". São listados os fatores que deveriam ser levados em consideração na escolha de carteiras de investimentos, associando-as às empresas e setores às quais elas pertencem.
Na saúde, a matéria intitulada "Um beijo na boca pode provocar AIDS" traz os comentários dos médicos infectologistas Ricardo Veronese e Jacyr Pasternack sobre as declarações feitas pelo casal Johnson e Masters, dos EUA a respeito da possibilidade de infectar-se através de beijos na boca. Afirma Veronese que os beijos prolongados não estariam livres de risco; complementa Paternak que "risco teórico existe". Ambos justificam o risco a partir de argumentos baseados em possibilidades: maior possibilidade de contato entre mucosa da boca e saliva; possibilidade de ocorrer sangramentos na boca durante beijos. Não se trata da quantificação do risco, mas do jogo das possibilidades em cenário probabilístico onde a retórica do risco serve também para qualificar ou desqualificar interlocutores. Assim, risco, no campo da transmissão do HIV, é da alçada de infectologistas e os especialistas cujas vozes se fazem ouvir nessa matéria afirmam que "o casal Master e Johnson não são autoridade em infectologia para fazer as declarações que fizeram e que podem levar ao pânico".

De Conceitos e Metáforas: A Linguagem dos Riscos na Perspectiva das Áreas Temáticas nas Matérias Localizadas no CD-Rom Folha
O levantamento de matérias do período de 1921 a 1998, feito através de amostragem, havia sinalizado para o fato que a linguagem dos riscos só começa a ter visibilidade na Folha de S. Paulo na década de noventa. O levantamento de todas as matérias com risco no título indexadas em CD-Rom no período de 1994 a 1997 refina esta conclusão possibilitando apreender que é apenas no final da década que a linguagem dos riscos torna-se de uso corrente. Lembramos aqui que 83% das 454 matérias localizadas (Figura 1) concentravam-se no ano de 1997 (último ano registrado no CD-Rom). O objetivo desta etapa da análise foi explorar o uso feito da linguagem dos riscos.

O Risco como Chamada de Primeira Página
Encontramos 25 exemplos em que a linguagem dos riscos apareceu na primeira página do jornal, 21 das quais referentes à edição nacional (sendo que, na edição específica para São Paulo, duas eram matérias originais e as outras eram versões regionais da edição nacional). Considerando as áreas temáticas, é o risco na economia que chega mais freqüentemente à primeira página: 13 das 25 chamadas referiam-se à economia (n=7) ou economia/política (n=6). Recessão, riscos bancários e o real são os temas centrais. As análises financeiras nas matérias correspondentes a essas chamadas estão associadas, sobretudo, às medidas voltadas à "governamentalidade" (Foucault, 1984) dos riscos no setor financeiro, havendo ai um interessante jogo de posicionamentos: quando o interlocutor é externo, é o país que está em risco (por exemplo, "FED vê o Brasil em situação de risco", 8/4/97); quando a interlocução se dá no âmbito do país, o risco é depositado no outro (por exemplo: "É preciso dar noção de risco aos bancos", 01/04/97).
Também os riscos na perspectiva da saúde chegam com freqüência à primeira página: As seis chamadas localizadas falam dos riscos para o bebê, de câncer da mama, da próstata, de epidemias trazidas por novos vírus, da queda de riscos cardíacos e da redução de riscos de morte pelo trabalho qualificado. Não há, no período analisado, menção à AIDS: quiçá um indicador que a AIDS deixou de ser notícia (Spink e cols., 2001).
Dos seis artigos restantes, três referiam-se a aspectos variados da segurança: risco de ser atingido por pedras na estrada; de desabamento de ponte, de armas que trazem mais riscos que segurança (31/08/97); um a riscos de corte de energia; um a questões ambientais (porque os nossos "Cerrados correm risco", 3/6/97) e um aos riscos de derrota política.
É obvio, assim, que o mote de primeira página é a ameaça; o risco-perigo que ronda o país, sobretudo no que diz respeito à falência generalizada na área da economia.

Dos Riscos Manufaturados: Ameaças ao Meio Ambiente
Riscos manufaturados, segundo Giddens (1998, p. 28) são aqueles criados "pela própria progressão do desenvolvimento humano, especialmente pela progressão da ciência e tecnologia". São estes os riscos que marcam a emergência de uma nova fase no mundo contemporâneo, chamada por Beck (1992) de "sociedade de risco".Embora, nos escritos acadêmicos, as implicações dos riscos manufaturados para o meio ambiente vêm sendo explorados desde os anos sessenta, suas ressonâncias na mídia – a julgar pelas matérias da Folha de S. Paulo – são recentes.
Encontramos apenas dez matérias referentes aos riscos ao meio ambiente, nacionais e internacionais: a Mata Atlântica, os cerrados, o Parque Nacional de Iguaçu, a Floresta Amazônica (grande vedete, responsável por cinco das dez matérias localizadas), a água do subsolo, os animais em perigo de extinção. Sendo área emergente para o uso da linguagem dos riscos na mídia jornalística, as nomeações de risco são variadas: em risco (por exemplo, "Verde em risco"), sob risco, risco de e risco para.
Os riscos são meramente descritos, uma forma de uso que remete à primeira fase de desenvolvimento do conceito de risco na epidemiologia - denominado por Ayres (1997) de epidemiologia da constituição – onde risco desempenha papel periférico "de caráter (...) basicamente descritivo e quase sempre indiretamente quantificado" (p.292).
Apenas a matéria publicada em 19 março de 1997, intitulada "Greenpeace alerta para risco de "poluição genética", anuncia as novas questões ecológicas decorrentes da engenharia genética. A ausência de matérias sobre riscos associados à engenharia genética surpreende especialmente tendo em vista que esse foi o ano em que Dolly, a ovelha clonada, foi apresentada ao mundo e o ano, também, da polêmica sobre o tomate transgênico. Seria necessário reverter a busca, focalizando especificamente a questão da engenharia genética, para entender porque a linguagem dos riscos não migra para esta área.

A Hora e a Vez dos Esportes de Ação
Das 31 matérias que vinculavam risco e esporte, 24 tinham por foco o futebol. Nessas matérias, o termo risco foi utilizado para falar de possíveis perdas: rebaixamento do time, risco de afastamento ou de perda de jogadores, risco de perder o cargo de técnico. Encontramos, porém, um uso interessante da expressão contrato de risco, modalidade de relacionamento contratual baseado numa aposta.
Esse uso muito específico da linguagem de riscos, emprestado da economia, pode ser ilustrado com o caso Rodman. A matéria intitulada "Rodman se oferece em contrato de risco" (8/6/97) relata que esse jogador, cotado para ser dispensado do time de basquete Chicago Bulls por indisciplina, propôs participar dos jogos sem salário garantido. Dizia ele: "eu ofereci a eles um negócio de risco. Acerto verbalmente um contrato, sei lá, de uns US$ 10 milhões. Eu disputo o torneio inteiro, e eles só me pagam no final se estiverem satisfeitos comigo. Que tal?"
A liga profissional norte-americana não aceitou o contrato,6 mas obviamente a proposta chegou a ser considerada. No período analisado encontramos duas outras matérias sobre contratos de risco: em 19/02/97, Renato gaúcho propunha também um contrato de risco, sugerindo ao Flamengo que cortasse seu salário se não pudesse jogar devido à contusão no joelho; em 25/10 do mesmo ano foi a vez de Candinho, técnico do Corinthians, assinar "contrato de risco": se o time fosse rebaixado, a diretoria deveria procurar novo treinador; caso conseguisse livrar o time do rebaixamento, continuaria no cargo em 98.
Embora esses contratos de risco parecem ter sido propostas feitas pelos profissionais em questão, havendo indicações de resistência a essa modalidade de aposta por parte dos empregadores, é uma possível ilustração da apropriação da linguagem dos riscos, na modalidade dos investimentos financeiros, no futebol. Há evidência, também, nas matérias analisadas, de que a abordagem da "Análise dos Riscos", começa a se fazer sentir neste cenário. Por exemplo, a matéria intitulada "Risco corintiano de cair passa de 56%" (5/11/97) traz cálculos da Datafolha sobre as chances de rebaixamento dos vários times, sendo explicitadas as duas premissas em que se basearam tais cálculos: "as chances de um time vencer, empatar ou perder um jogo são as mesmas, independente do adversário e do fator campo; e todas as partidas que não terminam empatadas têm como resultado o 1 a 0".
Mas são os esportes de ação que aparecem impregnados pela linguagem dos riscos; os riscos são aí intrínsecos à própria atividade. Por exemplo, em matéria de 20/02/97 Niki Lauda, às vésperas do julgamento do acidente em que morreu Ayrton Senna, diz esperar que o tribunal "valorize os riscos voluntários que correm os pilotos". Afirmou achar "estúpido" um tribunal da alçada civil julgar um caso relacionado com esporte de velocidade extrema, pois: "Entre os altamente pagos riscos que se assumem na Fórmula 1, desgraçadamente, também está o de morte. É algo que qualquer piloto sabe perfeitamente".
Risco é também parte do pacote dos esportes de aventura que vem tornando-se cada vez mais populares: canoagem, rafting, rapel e os variados "rali humanos", como descrito na matéria publicada na seção Fitness, da Editoria "Revista da Folha" (14/09/97), intitulada: "Alto Risco". Apesar do título, os riscos dessa modalidade de esporte ficam subentendidos: "as equipes enfrentarão rios, florestas e montanhas em provas que incluem trilhas, 140 km de corridas de longa distância, 150 km de mountain bike, 80 km de travessias com caiaque e vários pontos de rapel (descida de montanhas, com cordas) com até 50 metros".
A convivência delicada entre o risco-aventura e a "Análise de Riscos" como estratégia de governamentalidade, é admiravelmente ilustrada pela matéria intitulada "Risco à vista", publicada na seção Ação da Editoria Esporte (15/05/97). O problema em pauta é o patrocínio dos esportes de ação: as aventuras solitárias de ciclistas, os escaladores de montanhas dispostos a enfrentar as vias de acesso mais difíceis, o pára-quedista que pensa em enfrentar os 50 graus negativos do Pólo Norte são os exemplos mencionados na matéria analisada. Os patrocinadores fogem diante das dificuldades e riscos dos esportes de ação: "Não os riscos físicos, administráveis e garantidos com técnicas e equipamentos de segurança, mas os riscos de retorno: o que não é absolutamente mensurável para a maioria dos marketeiros não merece o investimento".

Na Política, o Jogo da Ambigüidade
Nos esportes há uma tensão sempre presente entre a perspectiva dos riscos como perigo, como jogo, como aventura e como governamentalidade. Já na política, risco é cenário metafórico, descompromissado com quaisquer das vertentes da linguagem dos riscos. A liberdade de uso já é anunciada pelo contexto de uso: quase um terço dos títulos referentes à política foram encontrados na seção Painel, da editoria Brasil, onde o título expressa a notícia. Os títulos são saborosos: "Riscos do rumo incerto" (Medeiros, por engano, quase entra em reunião do PT); "Riscos de atraso", "Cronograma em risco", "Tática de risco", "Aposta de risco", "Risco calculado", "Jogada de risco", "Jogo de risco", "Estratégia de risco", "Negócio de risco", "Aparição de risco" (falando da visita de Quércia à capital paulista para testar sua popularidade).
Há medidas que correm risco de não serem implementadas (como a decisão de ratificar a convenção da OIT sobre emprego de menores) ou mesmo votadas (como a revisão da previdência). Há eventos que correm risco de não vingarem, como o leilão da Companhia Vale do Rio Doce. Há riscos para a Democracia (em Hong Kong face à devolução da província à China) e para os turistas (referindo-se à situação política na África do Sul).
Muitas das matérias são notas curtas sobre o andamento de processos variados: eleição para presidência da câmara, votação da emenda sobre reeleição ou privatização de estatais, onde há risco de adiamento ou perda de posições. Nas matérias mais longas, os riscos que rondam as entrelinhas do discurso são os da desordem, vista sobre qualquer um dos dois ângulos: segurança na esfera nacional ou o jogo das desigualdades na sociedade globalizada.
Não se trata, portanto, de cálculo de risco: risco não é, nessas matérias, probabilidade e sim um mecanismo de culpabilização eminentemente adaptado à sociedade globalizada que, provendo-nos com grau inusitado de mobilidade, nos tornam livres, porém vulneráveis. Novos mecanismos de proteção se fazem necessários, a nível nacional – pautados nas instituições que zelam pela segurança – e internacional, quando novas estratégias de justiça tendem a ser desenvolvidas. A noção de risco se encaixa admiravelmente bem nessa nova ordem: "A idéia de risco poderia ter sido criada sob medida. Sua terminologia universalizante, seu grau de abstração, seu poder de condensação, sua cientificidade, sua conexão com a análise objetiva, tornam-na perfeita" (Douglas, 1992, p. 15).
A matéria publicada em 9/2/95 (Editoria Turismo) ilustra o uso da linguagem dos riscos para falar da dinâmica da desordem-segurança. Nela, o cônsul da África do Sul em São Paulo pleiteia que o país tornou-se "um novo mundo a ser descoberto pelos turistas; até grupos de turistas negros estão se tornando comuns no país". Com o fim da política segregacionista houve melhoria na segurança para os turistas tendo em vista "que os recursos da polícia puderam ser deslocados para a sua principal prioridade: manter a lei e a ordem". Cria-se assim uma trama que envolve o sistema político, a polícia como aparato de segurança e os riscos para turistas.
Também a matéria de 19/6/97, intitulada "Azeredo conhecia risco de rebelião" (Cotidiano, edição nacional), aborda risco como desordem. Mais uma vez, a segurança é uma questão de polícia, sobretudo porque a rebelião em pauta é de praças da Polícia Militar de Belo Horizonte. É um belo exemplo do que se denomina "gerenciamento dos riscos": tratava-se de risco conhecido; sabia-se que havia alto grau de insatisfação e "havia riscos de a tropa se rebelar". Em linguagem gerencial, os oficiais do Comando de Policiamento consideraram que o "grande erro" do governo e do alto-comando foi "não terem sido mais habilidosos politicamente".

Lazer: Cunhando Novas Expressões
Risco, no período analisado, foi temática de produções culturais variadas. Das 22 matérias sobre lazer com a palavra risco no título localizadas no CD-Rom Folha (1994-1997), 16 relatavam ou anunciavam filmes, vídeos, programas de TV, espetáculos teatrais ou livros que tinham risco como tema. Este é o período em que o filme "Risco Máximo", protagonizado por Jean Claude Van Damme, chega às telas de cinema (1996), vídeo-locadoras (1997) e à televisão a cabo (final de 1997), sendo amplamente anunciado no caderno Ilustrada (contabilizando 6 dos 22 títulos localizados). É também o período em que "Alto Risco", série da televisão dedicada a esportes radicais, chega ao país e em que foi lançada a tradução do livro de Peter Bernstein, "Desafio aos Deuses, a Fascinante História dos Riscos". É interessante observar que, apesar do autor ser descrito como um "erudito dedicado ao estudo da história dos riscos e das Bolsas de Valores", o livro é anunciado, na editoria Brasil, em edição nacional, como "Um passeio pelo divertido mundo dos riscos" (2/11/1997).
Também o teatro se abre às experiências com risco. Na peça de Rodrigo Matheus e Deborah Pope ("Deadly", resenhada em matéria de 17/03/1997), circo, dança, filme, teatro e rock se unem para criar um espetáculo onde o risco está presente nos embates acrobáticos dos atores assim como nos excessos dos seres humanos. Palavras, sons e imagens também dialogam em espetáculo intitulado "Poesia é risco" (14/10/97) onde o risco fica depositado na inusitada combinação de poesias, música e vídeo. Mas o risco não é apenas palco para experiências inovadoras no teatro; o teatro, segundo matéria de 28/12/97, pode ser importante estratégia educativa e, em Bem Nadi, no Laos, as crianças aprendem a lidar com o perigo das minas através de músicas e teatro de bonecos.
Na área do lazer, risco é também utilizado para falar dos perigos que se corre: arriscar realizando montagens novas e pouco comerciais; proteger-se dos riscos das intempéries, fazendo espetáculos em recintos fechados; patrimônios culturais que correm risco e artistas que temem pelos riscos à liberdade de expressão. Risco, nesses contextos, é muitas vezes um artifício de marketing, pouco tendo a ver com o conteúdo da matéria. O relato do debate sobre liberdade de expressão (20/11/97), realizado após os episódios que envolveram os músicos do "Planet Hemp", traz depoimentos (que "compõem um quadro de ameaça à liberdade de expressão") e propostas de ação. Não é uma análise dos riscos ou fatores a eles associados. A ameaça se torna risco no título da matéria pela força que o termo empresta ao tema, mais do que pela afiliação ao enquadre analítico dos riscos.

O Risco na Vida Cotidiana: O Dever de Prevenção
Para pesquisar esse aspecto analisamos as 47 matérias que tinham por foco os riscos da vida cotidiana, aí incluindo o relato de experiências pessoais com uma diversidade de riscos ou análises voltadas à responsabilidade individual de prevenção e autocontrole desses riscos. A grande maioria dos relatos era sobre questões relacionadas à saúde (66%) ou à interface entre saúde e segurança (15%), sobressaindo-se o caso de M – uma menina de dez anos que engravidou em conseqüência de estupro.
Nas cinco matérias7 que discutiam aspectos do caso de M, não houve consenso entre os especialistas sobre os riscos dessa gravidez, sendo variadas também as formas de referir riscos:
"Sobre os riscos do parto: "(...) gestantes adolescentes têm maior probabilidade de desenvolver doenças como pré-eclâmpsia e eclampsia"; (...) O parto fica prejudicado por causa da pouca elasticidade da vagina em uma garota de 10 anos; o maior agravante é que a menina não tem maturidade para ser mãe (13/12/97)."
"Sobre os riscos do aborto: "Há maior fragilidade dos tecidos dos órgãos da paciente (...) Mas se a interrupção for feita por um profissional gabaritado, não há maiores riscos; (...) Mas todo procedimento intervencionista, em qualquer idade, tem risco. Se realizado por equipe gabaritada, o risco diminui (13/12/97, Edição São Paulo). Ainda sobre o aborto, em matéria de 16/12/97, o Dr. Lister, descrito como especialista em gravidez de alto risco, pondera que "Não dá para afirmar o que é mais perigoso sem examinar a paciente. O que podemos dizer é que a gravidez neste caso é de alto risco" e complementa arrolando os fatores que dão respaldo à sua argumentação. Posiciona-se a favor da indução da expulsão do feto pois, se for necessário fazer cirurgia, "os riscos aumentam".
Os riscos mencionados não se referem apenas ao corpo-biológico, pois a matéria seguinte (18/12/97) intitula-se "M corre o risco de rejeitar o bebê: pode ter problemas de relacionamento com o filho". Se a opção for pelo parto, recomenda-se que M e seu filho, submetam-se a acompanhamentos psicológicos: "Do contrário, poderão ter suas vidas arrebentadas", afirma o chefe do serviço de psiquiatria infantil do Hospital de Clínicas.
Essa sutil diferença no uso da linguagem dos riscos quando se transita do biológico para o psicológico fica mais clara na matéria intitulada: "Risco diminui com pré-natal" (18/12/97). De um lado, fala-se sobre os riscos da gravidez na adolescência, quando há maior probabilidade de sofrer hemorragia, aumento de pressão arterial e toxemia; de outro, afirma-se que a gravidez na adolescência não traz sérios problemas que não sejam de ordem psicológica. Em suma, ao falar do corpo biológico, aplica-se a linguagem da probabilidade; ao falar de saúde mental, a questão passa a ser da ordem dos problemas.
Os relatos de experiências e os estudos de caso constituem ocasiões propícias para os esforços de educação que visam desenvolver o senso de responsabilidade pessoal perante a saúde. Várias das matérias localizadas que versavam sobre quem corre riscos traziam esta missão estampada em seus títulos: "Como praticar esportes sem riscos" (02/02/97); "Bons métodos para evitar gravidez e o risco da AIDS" (05/05/97); "Saiba se você corre risco de contrair hepatite B" (01/06/97); "Quem não faz (circuncisão) corre riscos" (28/06/97); "Saiba como levar uma gravidez de risco" (28/12/97).
A forma específica de transmitir a mensagem educativa variou conforme o público-alvo, sinalizado, sobretudo, pela localização da notícia no jornal. Por exemplo, a matéria intitulada "Saiba como levar uma gravidez de risco", publicada na seção Saúde do caderno Cotidiano, relata as recomendações do Terceiro Encontro Internacional de Especialistas em Medicina Fetal. Pautando-se na linguagem formal dos riscos, parte da definição do que seria uma gravidez de alto risco e especifica as chances de ocorrência de diferentes problemas (prematuridade, retardo de crescimento e morte) para então delinear os procedimentos considerados imprescindíveis para o controle dos riscos: repouso, acompanhamento rigoroso no pré-natal, definição do hospital onde o parto seria realizado.
Já a matéria intitulada "Bons métodos para evitar gravidez e o risco da AIDS", publicada na Seção Sexo da Editoria Folhateen (05/05/97), oferece um contraste interessante. Embora sendo também de autoria de especialista,8 busca quebrar as barreiras de comunicação, adotando linguagem menos formal, permeada de termos próprio da linguagem social de jovens: "(...) mesmo usando a santa borrachuda existe o risco de gravidez; mesmo transando com a tal existe o risco de contágio de doenças se um parceiro estiver contaminado. Risco zero, só uma coisa garante: a abstinência sexual. E como não é esse o caminho escolhido por vocês (referindo-as a carta enviada por um rapaz de 20 anos), vamos tratar de procurar a segurança máxima possível."

O Risco Positivado: Sem Arriscar Jamais Cresceremos!
De maneira geral, nas diversas áreas em que foram classificadas as matérias localizadas os riscos têm teor negativo: remetem à perda, desordem, doença ou - como no caso das matérias sobre lazer - aos perigos e excessos da vida na sociedade contemporânea. No conjunto das 454 matérias apenas uma focalizou o risco como aspecto positivo do comportamento humano. Tratava-se de texto de autoria de Paulo Coelho, publicado na seção Maktub,da Ilustrada (4/11/95), intitulado "Risco é necessário para acertar" onde o autor argumentava que: "Se exigirmos uma situação segura antes de dar um passo arriscado, jamais acertaremos".
A palavra risco em seu uso inicial, na aurora da modernidade clássica, era uma forma neutra de referir-se às possibilidades de eventos futuros que podiam significar ganhos ou perdas. Hoje, como afirma Mary Douglas (1992, p.24), "A palavra foi esvaziada para significar riscos maus. (...) A linguagem dos riscos ficou reservada como um registro léxico especializado para a conversa política sobre resultados não desejados".. Essa perspectiva atual do risco como perda é claramente exemplificada através do sentido apontado pelo dicionário etimológico: "perigo ou possibilidade de perigo; possibilidade de perda..." (Cunha, 1982, p. 686). Vê-se que a palavra risco é atrelada a um significado menos amplo, limitando-se ao perigo e perda e excluindo algum risco de ganho.
Há, entretanto, uma contra-corrente, associada ao pensamento holista sobre desenvolvimento humano, para a qual o risco é oportunidade de expressão, e de ampliação de perspectivas. Encontramos a positividade das experiências com risco na literatura sobre desenvolvimento de recursos humanos nas empresas, assim como na literatura sobre aventuras radicais, consideradas como cenários propícios para a ampliação dos horizontes da experiência. Esse aspecto está presente na descrição dos participantes do "rali humano", em matéria intitulada "Alto Risco" (14/9/97): "Um grupo formado por empresários e profissionais liberais decidiu aproveitar a experiência de tomar decisões rápidas e ousadas no trabalho em uma aventura mais que radical: o 'rali humano'".
Até recentemente, (a julgar pelo levantamento feito, que abarca os anos até 1997) o risco desejado e socialmente tolerado não era tema da mídia jornalística. Lembramos, entretanto, que em 1998 e 1999 foram publicadas várias matérias (por exemplo, na Revista da Folha) sobre esportes radicais, em que a positividade do risco era abordada. Por exemplo: "Crianças radicais: os meninos e meninas que praticam pára-quedismo, rafting, kart, mergulho e outras modalidades de risco" (11/3/98); "Aventuras em família: país e filhos estão se divertindo no fim de semana com descidas de cachoeiras e corredeiras, trilhas de bicicleta, exploração de cavernas, escaladas" (2/6/99); "Os quase radicais: super-homens de final de semana desafiam seus limites em esportes arriscados e entram para a turma do comigo ninguém pode" (17/10/99).

Conclusões
Tomando a Folha de São Paulo como exemplo, o estudo realizado permite concluir que a mídia possibilita mapear os repertórios disponíveis para dar sentido aos riscos no mundo contemporâneo. A produção de sentidos resulta da confluência de contextos variados: os significados mutantes dos repertórios disponíveis no tempo longo da história, os contextos disciplinares que os localizam no âmbito da linguagem social própria dos diferentes domínios de saber-fazer ou ainda o contexto da notícia na perspectiva da cultura jornalística. Resulta dessa confluência de contextos uma verdadeira cacofonia: risco ora é usado como sinônimo de perigo que se corre, ora é elemento formal do cálculo de possibilidades.
Considerando primeiramente a linguagem dos riscos no tempo longo da história, verificamos dois movimentos contrastantes. De um lado, risco é usado na perspectiva da responsabilização e culpabilização, num esforço de colocar ordem diante da complexidade crescente da sociedade globalizada. Essa é a perspectiva de gerenciamento dos riscos, uma estratégia de governamentalidade (Foucault, 1984) que se faz presente nos discursos da saúde, da segurança, da economia e da política. De outro lado, risco é adrenalina e busca dos desafios intrínsecos às novas modalidades desportivas (e algumas mais antigas, como alpinismo e esportes de velocidade) que emerge em contraposição aos esforços de ordenação dos espaços sociais a que se presta o risco passível de cálculo e gerenciamento. As duas óticas estão numa relação de tensão, mais do que em confronto. Por exemplo, os esportes radicais são também ocasiões propícias para o desenvolvimento de funcionários mais flexíveis e aptos para operar adequadamente no âmbito do mercado globalizado.
Considerando a seguir o uso da linguagem dos riscos na perspectiva dos diferentes domínios de saber-fazer, observamos diferenças consideráveis na forma em que risco é abordado nas diversas áreas cobertas pelas matérias analisadas. Nos domínios onde a análise dos riscos já conta com longa tradição – a saúde, a economia, a tecnologia – risco é em geral abordado em sua dimensão quantitativa. Fala-se em probabilidade ou chance de ocorrência e analisam-se os fatores de risco. Mas mesmo aí há diferenças no âmbito dos vários domínios. Na saúde, por exemplo, fala-se em probabilidades e chances no que diz respeito à gravidez ou câncer; mas em problemas quando se trata de saúde mental. Na economia, impera a linguagem quantitativa quando o assunto é investimentos, mas ao abordar as medidas de proteção por parte do governo, volta-se a usar a linguagem do perigo.
Nas demais áreas, risco é cenário para falar de perigos, de experiências radicais ou para referir-se aos eventos problemáticos do cotidiano. Risco, nessa esfera, é espetáculo: tem funções midiáticas e marqueteiras.
Ambas as formas dominantes – risco como probabilidade e risco-perigo – estão também presas ao contexto da notícia. Obviamente, as matérias publicadas nas seções Painel, Opinião, na editoria Brasil, ou Cinema,na Ilustrada são chamadas curtas onde o título é chamariz. Interessa, nesses casos, a variabilidade de expressões e áreas temáticas a que se empresta a linguagem dos riscos. Já as matérias mais substantivas, algumas de autoria de comentaristas especializados, fornecem mais elementos para a análise do uso que é feito da linguagem dos riscos.
É oportuno lembrar que a estratégia de pesquisa foi focalizar matérias que tinham risco no título. Risco como palavra solta aparece com maior freqüência. Justificamos tal estratégia por considerarmos que a palavra no título sinalizava a centralidade que o conceito haveria de ter para a notícia, muito embora soubéssemos que a produção jornalística é fruto de complexas negociações entre autor da matéria, redator e editor do jornal.



Pego nas redes da decepção: os anarquistas e a mídia
por Killing King Abacus

Uma vez que a presente ordem social esta aí, é impossível evitar a
interação com as várias facetas da estrutura de poder. Aqueles de nós
que se autodenominam anarquistas precisam escolher tornar essas
interações claramente antagonistas e conflitantes, refletindo nosso
desejo de destruir completamente a estrutura do poder. Tal escolha
requer reconhecimento do inimigo. Quase todos os anarquistas
reconhecem que o Estado e o Capital são facetas da estrutura do poder
e possuem algum entendimento mínimo de como eles funcionam como tais.
Cada vez mais anarquistas estão reconhecendo que a tecnologia e a
ideologia são também parte de uma rede de poder. Poder-se-ia pensar
que por isso eles tirariam a devida conclusão de que o sistema
tecnológico para a disseminação da ideologia, a mídia (eu uso a
palavra mídia para me referir especificamente a este sistema na sua
totalidade, não para me referir a específicas ferramentas com as quais
ele costuma desempenhar sua função, uma vez que algumas destas
ferramentas podem ser usadas de maneira diferente, mesmo contra esta
função) é uma parte inerente da estrutura de poder e, portanto, um
inimigo de toda rebelião e de toda tentativa de criar uma vida livre.
Mesmo em face da intensa concentração da mídia nas mãos de
pouquíssimas megacorporações (um fato que deveria revelar algo da sua
natureza), existem ainda alguns anarquistas que desejam diretamente, e
de uma forma não conflitual, interagir com ela numa tentativa de
comunicar idéias anarquistas no seu próprio terreno. Isso demonstra a
falta de compreensão de como a mídia funciona.
A mídia desempenha um papel específico na estrutura de poder, um
papel que, em um estado democrático, se torna não somente essencial,
mas também central ao funcionamento do poder. Mas antes de continuar,
é necessário confrontar as ilusões que muitos têm sobre a democracia.
Enquanto é verdade que a democracia pode apenas significar um processo
decisório que oferece a todos os os envolvidos uma palavra ou um voto
em cada decisão (o porquê disto ser incompatível com a anarquia é um
assunto a ser melhor tratado em outro momento por questões de
breviedade), na época atual, a democracia é também e principalmente um
sistema de Estado e poder social que mantém a paz social através da
permissão do maior espectro possível de opiniões. O Estado democrático
é capaz de permitir essa amplitude do espectro de opinião exatamente
porque opiniões são basicamente sem substância. Opiniões são idéias
que foram esvaziadas de toda vitalidade. Separadas da vida, e de
qualquer base projetual, elas se tornam falação inofensiva que por fim
fortalece o Estado democrático por fazê-lo parecer tolerante e aberto
se comparado aos Estados feudais ou ditatoriais.
A partir disso, a função política da mídia deveria ser óbvia. Ela é o
mediador e processador da opinião democrática. Ela devora as
complexidades da vida e da interação social, das relações
internacionais e da insurgência, do colapso cultural e da necessidade
econômica... a totalidade da realidade no presente, e a mistura
formando uma pasta entre seus dentes, então as digere e as caga...
bosta. Todas as complexidades, toda a vitalidade, toda a realidade com
a vida real foi secada, e somos deixados a decidir se essa massa de
informação marrom é boa ou não. A realidade de onde esta bosta foi
produzida está tão distante que nós "sabemos" que não podemos
influenciá-la diretamente, então ao invés disso compramos a lógica
binária do Estado democrático, discute-se no bar sobre a merda da
bosta e vota-se naqueles políticos em que a bosta exala o aroma mais
doce. Ser a favor ou contra esta guerra, aquela lei, qualquer que seja
o candidato, a política ou o programa, não é ameaça alguma ao poder. O
propósito da mídia é justamente promover o pensamento pré-digerido que
nos mantém passivos em face de uma realidade distante, sempre pronto
para escolher as opções oferecidas pelo Estado democrático, opções que
terminam todas sujeitando ao poder do Estado e do capital aquele que
escolhe.
A mídia possui uma outra função essencial. Ela é a criadora de imagens
para consumo. Ela cria celebridades e personalidades para as pessoas
procurarem e viverem através delas de modo vicário.
Ela cria imagens de papéis para as pessoas imitarem de modo a
inventarem sua "identidade". Ela cria imagens de eventos separados da
vida e colocados acima dela. É através dessas imagens, ingeridas
acriticamente, que as pessoas vêem e interpretam o mundo, formulando
suas opiniões desta sua irrealidade virtual. Na medida em que a mídia
é bem sucedida, o resultado é uma população passiva, previsível,
consumindo o lixo servido pela ordem social.
Escolhendo transmitir idéias através da mídia se esta escolhendo
alimentar o monstro mastigador com essas idéias, para oferecer a
alguém esta coisa vazia de vida. Para anarquistas isto não faz
sentido. É impossível para a mídia retratar o anarquismo como uma
práxis em vida ou a anarquistas como indivíduos complexos e
multidimensionais. Não é, portanto possível expressar idéias
anarquistas de uma forma conveniente, que valha a pena, através deste
fórum. As idéias seriam mastigadas e defecadas como uma opinião entre
muitas, uma bosta a mais da qual o odor o público pode discutir. Os
indivíduos viventes são mastigados e defecados na forma de imagens -
de esquisitos, de pensadores intelectuais, de desordeiros de rua - mas
essencialmente como imagem e não seres que agem e vivem. A mídia é
parte da estrutura de poder, e, como tal, é nossa inimiga. Não há como
jogar o jogo dela e ganharmos.
Um notório exemplo de como esse processo funciona pode ser visto na
matéria sobre anarquista que apareceu no 60 minutes logo após as
manifestações contra a OMC em Seattle. Esta colagem de 12 minutos de
entrevistas e imagens foi provavelmente o melhor que os anarquistas
poderiam esperar da cooperação com a mídia. E do início ao fim a mídia
levou a cabo sua tarefa. De mais de duas horas de entrevistas e várias
horas de gravações dos eventos de Seattle, o editor do programa
selecionou o que eles (ou seus patrões) queriam usar para compor esta
breve matéria. Usando o título "Os Novos Anarquistas". Estes experts
em mediação já fizeram uma separação entre os espectadores e estas
novas "celebridades", esta nova "subcultura". Os especialistas em
construção de imagens entrevistaram um ao qual eles chamam de "guia
filosófico" separadamente dos outros anarquistas. O entrevistador e
este ao qual a mídia atribuiu um papel de guia sentaram cara a cara
como iguais. Os outros anarquistas foram entrevistados como um grupo,
alguns deles sentados no chão, e com o ângulo da câmera dando a
impressão de que todos estavam sentados mais abaixo que o
entrevistador. Um espectador que nao tivesse muito conhecimento
ficaria com a impressão de que estes "novos anarquistas" são
seguidores de um líder, mesmo que este seja apenas chamado de "guia
filosófico". Muito claramente o entrevistador direcionava o que era
dito com as suas perguntas - afinal de contas esta é sua
especialidade. Por permitir a entrevista transcorrer de modo normal,
aqueles anarquistas jogaram exatamente o jogo na mão da mídia. Por
responder às perguntas, eles enfraqueceram seus argumentos, caíram em
clichês tais como a velha e obtusa visão sobre a destruição de
propriedade não ser violência e ajudaram a futuramente marginalizar e
espetacularizar eles mesmos. Eu não vi ainda um retrato da mídia
desses "novos anarquistas", dos anarquistas de Eugene" (um termo que
os anarquistas de Eugene fariam bem em destruir o quanto antes), ou
qualquer termo que um jornalista, entrevistador ou apresentador
escolhe para usar que não fosse manipulativo - já que é assim que a
mídia funciona.
Na esteira das manifestações em Seattle, tem sido dada muita atenção
aos anarquistas na mídia, particularmente enfocando a questão da
destruição de propriedade. Muita coisa perturbadora mas que não
surpreende têm aparecido a partir daí. Alguns anarquistas têm começado
a se preocupar com a sua imagem na mídia. Deste modo há aqueles
anarquistas que condenam a destruição de propriedade porque ela dará
aos anarquistas uma imagem pública ruim. Mas estes são tão ridículos
que me perturbam menos daqueles que publicamente insistem que
"destruição de propriedade não é violência". Usando este argumento que
aparece freqüentemente na mídia, os anarquistas estão se deixando
levar pelos valores desta sociedade: eles estão medindo suas palavras
para encaixá-las no ponto de vista do diálogo democrático. Este ponto
de vista procura forçar a ação revolucionária a se enquadrar na
equação moral da violência/não-violência. Para anarquistas que
determinam suas ações por eles mesmos, em seus próprios termos, tais
equações são inúteis: elas não possuem significado. Central para a
ação anarquista no presente é a necessidade de destruir o Estado, o
Capital e todas as instituições de poder e autoridade de modo a criar
a possibilidade para cada indivíduo se realizar completamente como
quiser. Tal destruição completa - destruição de um mundo - abarcando a
civilização - será violenta. Não há sentido em negá-la ou fazer sua
apologia por isso. O que cada um de nós faz para alcalnçar isso é
determido por cada indivíduo em termos de seus desejos, sonhos,
capacidades e circunstâncias - em termos de vida que ele está buscando
criar para si próprio. Ela não possui relação com nenhum tipo de
moralidade. Portanto, como anarquistas, não há porque lidar com
questões tais como: "A destruição de propriedade é violência ou não?",
"É isto um ato de autodefesa ou um ataque ofensivo?". Não temos motivo
para ligarmos para isso. Nosso desejo é atacar e destruir todas as
estruturas de poder e isso determina nossas ações. Essas outras
questões são baseadas nas normas morais hipócritas do poder, que não
serve a outro intento além de colocar pesadas correntes em nossa
capacidade de agir. Então para que nos serve falar à mídia sobre estas
questões nos seus termos, usando seu modo de falar sobre essas
questões e seguindo seu protocolo? De fato, para que nos serve falar à
mídia de qualquer forma?
Tratando com a mídia no seu terreno, se escolhe abandonar suas
próprias ações nos seus próprios termos. Como o episódio do 60 Minutes
tornou tão claro, tratar com a mídia no seu terreno é aceitar a
delegação. Modifica-se as próprias idéias em favor dos mestres da
"comunicação" para que sejam mastigadas em mais opiniões no mercado
ideológico. Entrega-se a realidade de sua vida a esses experts
separadamente, para serem transformadas em imagens de 60 segundos de
eventos isolados. Modifica-se a atividade de comunicação para aqueles
cuja especialidade é a "comunicação" de mão única de não-eventos e
não-idéias desvitalizados, pré-digeridos que criam consenso social. E
então se reclama de como se foi mal representado na mídia. Por que se
escolheu ser representado afinal de contas? A escolha de aceitar a
representação da mídia não é menos uma aceitação da delegação do que o
voto ou a direção. A rejeição da delegação, tão central a um
anarquista e a uma perspectiva insurrecional, inclui a recusa de
tratar com a mídia em seus termos.
Se considerarmos a autodeterminação e a auto-atividade como bases
fundamentais para a prática anarquista, o caminho para comunicarmos
nossas idéias é claramente criar nossos próprios meios de comunicação.
Pichações, cartazes, comunicados, jornais, revistas e rádios piratas
podem todos serem usados para expressar idéias anarquistas sem que
sejam passadas através dos mecanismos de mastigação da mídia. Estes
meios de comunicação autodeterminados podem ser distinguidos da mídia
por não serem tentativas de mediar opiniões e imagens enquanto clamam
objetividade e servem um pasto pré-digerido para uma audiência
passiva: eles são verdadeiras tentativas por parte dos anarquistas de
expressarem suas idéias não somente em palavras mas também no método
através do qual se expressam. É claro que esses métodos, os quais
podemos tomar em nossas próprias mãos, não alcançarão nem
aproximadamente o número de pessoas que um grande jornal, revista ou
programa de TV atingem. Mas tais considerações poderiam apenas ter
algum importância para aqueles que querem evangelizar, para aqueles
que vêem a anarquia como um sistema de crença ao qual devemos
converter as pessoas para haver algum dia a revolução. Para
parafrasear alguns camaradas italianos: se alguém não tem mercadorias
para vender, para que servem sinais de néon? E na era do reinado do
Capital, evangelização - mesmo a evangelização anarquista - é
marketing ideológico. Para aqueles cujo interesse é criar suas vidas
da sua maneira e destruir a sociedade que impede isso, tal marketing é
inútil.
Infelizmente, desde as ações anti-OMC em Seattle, a mídia tem
sacaneado o meio anarquista, e tem havido anarquistas dispostos a dar
o que eles querem Indubitavelmente, a mídia continuará a caçar
anarquistas poe tanto tempo quanto a anarquia seja um item
mercantilizável. É portanto necessário que nós anarquistas
reconheçamos que a mídia é parte da estrutura de poder do mesmo modo
que o Estado, Capital, a Religião, a Lei... Em outras palavras, a
mídia é nosso inimigo e nós devemos tratá-la como tal. Neste sentido, a ação de três italianos anarquistas - Arturo, Luca e Drew - tornam-se exemplares. Quando um jornalista invadiu o funeral de um companheiro deles à procura de um suculento bocado de notícias, eles bateram nele.

Tradução de Leo Vinícius

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